Engenheiro transforma garrafas plásticas em casas até 40% mais baratas

Solução criada na América Latina reaproveita resíduos, reduz custos na construção popular e aposta na participação comunitária como base do projeto

Isabella Valverde Isabella Valverde -
Engenheiro transforma garrafas plásticas em casas até 40% mais baratas
(Foto: Reprodução)

Em vez de enxergar lixo, ele viu paredes. O que antes se acumulava em córregos, lixões e terrenos baldios passou a ganhar função estrutural em moradias populares.

A partir dessa lógica simples — e ousada — um engenheiro passou a transformar garrafas plásticas descartadas em parte fundamental de casas que podem custar até 40% menos do que construções convencionais.

A técnica, que reaparece em projetos comunitários na América Latina, usa garrafas PET como elementos de preenchimento em paredes, substituindo parte dos tijolos tradicionais.

A proposta ganhou forma no início dos anos 2000, em Honduras, e desde então tem sido aplicada em casas, muros, reservatórios e estruturas coletivas, sempre com foco em reaproveitamento de resíduos e redução de custos.

O método é associado ao engenheiro alemão Andreas Froese, fundador da organização Eco-Tec.

Atuando junto a comunidades locais, a entidade passou a ensinar e adaptar a técnica em diferentes países da região, combinando construção, educação ambiental e participação direta de moradores e voluntários.

A lógica por trás do sistema é direta: as garrafas não são usadas vazias. Cada uma é preenchida com terra, areia ou pequenos resíduos de obra, o que garante rigidez e estabilidade.

Em seguida, elas são organizadas em fiadas, amarradas e fixadas com argamassa, formando paredes que depois recebem revestimento convencional. Visualmente, a casa não denuncia o material reciclado que existe por trás da estrutura.

Pesquisas acadêmicas que analisaram construções desse tipo apontam que a economia pode variar conforme o projeto, a disponibilidade de materiais e o contexto local. Em alguns casos, a redução no uso de insumos tradicionais chega a 50%.

Já a própria Eco-Tec afirma que, de forma geral, o custo final da obra pode cair até 40%, especialmente pela substituição parcial de tijolos e pelo uso de materiais encontrados na própria comunidade.

Um dos exemplos mais conhecidos é uma casa construída nos arredores de Tegucigalpa, capital hondurenha, onde cerca de 8 mil garrafas PET foram incorporadas à estrutura, preenchidas com terra retirada do próprio terreno.

Além de residências, a técnica também foi aplicada em muros de contenção, tanques de água e espaços de uso coletivo, como escolas e áreas comunitárias.

A expansão do método não ficou restrita a Honduras. Projetos semelhantes foram desenvolvidos em países como Bolívia, El Salvador e Colômbia, muitas vezes em parceria com organizações locais e instituições internacionais.

Em algumas iniciativas, estudantes, professores e moradores participaram diretamente das obras, transformando o processo construtivo em uma atividade educativa.

Do ponto de vista ambiental, o impacto é apresentado principalmente pelo volume de garrafas retiradas do descarte inadequado. Documentos institucionais indicam que centenas de milhares de unidades já foram reaproveitadas ao longo dos anos.

Apesar disso, não há uma padronização sobre o peso total desses resíduos, já que a maioria das iniciativas contabiliza o reaproveitamento em número de garrafas, e não em toneladas.

Estudos técnicos também apontam vantagens adicionais, como o potencial de isolamento térmico proporcionado pelas paredes mais espessas e pelo tipo de enchimento utilizado.

Ao mesmo tempo, pesquisadores alertam para limitações importantes, como a ausência de normas específicas e a necessidade de testes locais para garantir segurança estrutural, especialmente em regiões com exigências legais mais rígidas.

Mais do que uma solução pronta, a técnica tem sido apresentada como uma tecnologia social: depende de orientação técnica, adaptação ao contexto local e participação da comunidade.

Em um cenário de moradia cada vez mais cara e excesso de resíduos plásticos nas cidades, a proposta segue despertando curiosidade — e debate — sobre até onde soluções alternativas podem ir na construção civil.

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Isabella Valverde

Isabella Valverde

Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, com passagens por veículos como a TV Anhanguera, afiliada da TV Globo no estado. É editora do Portal 6 e especialista em SEO e mídias sociais, atuando na integração entre jornalismo de qualidade e estratégias digitais para ampliar o alcance e o engajamento das notícias.

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