A única cidade brasileira onde a Coca-Cola não pode ser vermelha

Em Parintins, a rivalidade entre os bois Caprichoso e Garantido é tão forte que obriga gigantes como a Coca-Cola a abandonarem o icônico vermelho

Gustavo de Souza Gustavo de Souza -
A única cidade brasileira onde a Coca-Cola não pode ser vermelha
(Foto: Reprodução)

Imagine chegar a uma cidade onde uma das marcas mais reconhecidas do planeta, famosa mundialmente por sua cor vermelha vibrante, é forçada a mudar de identidade para conseguir vender seus produtos. Esse cenário, que parece impossível para os especialistas em branding, é a realidade anual de Parintins, no Amazonas. Localizada no coração da floresta, a cidade é o único lugar do mundo onde a Coca-Cola se “veste” de azul para respeitar uma tradição cultural que move paixões e dita as regras do consumo local.

Essa adaptação visual não é apenas uma jogada de marketing, mas uma necessidade de sobrevivência comercial diante do Festival Folclórico de Parintins. Durante o evento, a cidade se divide entre os bois Caprichoso (azul) e Garantido (vermelho), e a rivalidade é levada tão a sério que os torcedores do boi azul se recusam terminantemente a consumir qualquer produto que remeta à cor do adversário.

O marketing dobrado perante a tradição

A Coca-Cola azul só pode ser encontrada em Parintins durante o período do festival, tornando-se um símbolo curioso da fusão entre tradição e grandes corporações. Para não perder metade de seu público consumidor, a multinacional produz latas, outdoors e materiais de ponto de venda totalmente azulados. É uma das exceções globais onde a marca permite a alteração de seu guia de estilo rigoroso para se curvar à cultura regional.

Essa transformação visual acompanha o crescimento explosivo da cidade. Durante o festival, Parintins recebe mais de 100 mil visitantes, quase dobrando sua população original. Com as ruas tomadas por turistas e locais devidamente uniformizados em suas respectivas cores, as empresas internacionais entenderam que, para manter a presença, o segredo é o respeito ao “código de cores” dos bois.

Um campo de batalha cultural e visual

A cidade se transforma em um verdadeiro campo de batalha visual onde o vermelho e o azul não se misturam. Além da Coca-Cola, outras grandes marcas, como bancos e redes de varejo, também modificam suas fachadas, embalagens ou campanhas publicitárias temporariamente. O objetivo é evitar a rejeição imediata de uma das torcidas, já que o uso da cor “errada” pode ser interpretado como uma ofensa ou apoio ao rival.

Essa estratégia mostra como a força da cultura local pode ser maior do que a padronização global. Em Parintins, o azul da Coca-Cola não é apenas uma curiosidade para fotos no Instagram, mas um reconhecimento da identidade de um povo que respira a magia do Boi-Bumbá e não abre mão de suas cores por marca nenhuma.

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Gustavo de Souza

Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e estagiário do Portal 6.

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