Homens afeminados são desejados por mulheres cansadas de ‘hétero top’

Para pesquisadora, estereótipos sobre os papéis femininos e masculinos prejudica ambos os lados

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Homens afeminados são desejados por mulheres cansadas de 'hétero top'
Juliano Floss (à esquerda) e João Guilherme (direita) são exemplos de homens que têm a sexualidade questionada por serem “afeminados”. (Foto: Reprodução/Instagram)

NATHALIA DURVAL

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Cruzar as pernas, gesticular ao falar, fazer xixi sentado, vestir roupas coloridas, chorar. Basta um homem héterossexual ter atitudes como essas para ser considerado afeminado. Geralmente usado de forma pejorativa, o termo virou virtude para muitas mulheres que, hoje em dia, preferem se relacionar com “homens açúcarados”, cansadas dos “hétero tops”.

Há exemplos entre as famosas. A cantora Marina Sena namora Juliano Floss, dançarino que chorou no BBB 26 por causa de uma jaqueta com o perfume da amada. A atriz Bruna Marquezine tem no histórico de romances o ator João Guilherme e o cantor canadense Shawn Mendes, ambos frequentemente questionados sobre sua sexualidade.

Eles, no entanto, são seguros de sua orientação sexual. O cozinheiro Dery Lima, 31, ouviu que era afeminado ainda na escola. Foi julgado pelos colegas por ter cabelo comprido, parecer “fofo” e ser tímido. Na faculdade, era por causa do jeito que se vestia e pela “simpatia”. Mulheres que o abordavam achavam que ele era gay. “Não lembro de uma vez que acharam de cara que eu fosse hétero”, conta.

Ele leva numa boa. “Não tem nada demais, parece que é mais sobre como me visto, falo e sinto. Se não está no esperado da performance da masculinidade, acham ‘estranho’.”

Tatuado da cabeça aos pés, com piercing no septo e barba cheia, Lima diz que não tem um estilo definido. Gosta de usar roupas corfortáveis e largas ou bem curtas.

Essa descontrução da masculinidade hegemônica incluiu aprender a nomear seus sentimentos e se expressar de forma mais clara, ele afirma, como evitar padrões que via em casa e viver relacionamentos abertos – “para testar outros formatos e não ser a pessoa central numa relação”. Diz que escutou de mulheres que elas gostam desse jeito.

Um estilo alternativo e com atenção a detalhes, que se distancia “do padrão camisa polo e tênis de corrida”, é algo que atrai a engenheira civil Talita Mesquita, 34, num homem. Também é importante ter sensibilidade e interesse em entender os próprios sentimentos.

Para Mesquita, um hétero afeminado tem segurança de si. “São homens que não se importam tanto com julgamentos ao expor sentimentos e fragilidades, além de ter empatia maior com as mulheres. Eles sabem que isso não os tornam ‘menos homens’.”

Ela busca em parceiros alguém que se emocione com ela sem medo, “elogie outros homens, use o que ele realmente quer”. São características bem diferentes dos “hétero tops”, com quem diz que nem consegue conversar. “Acho brega um homem que gosta de se vestir e falar como ‘machão’. Tenho zero atração.”

Depois de relacionamentos decepcionantes, a especialista em torra de café Júlia Cabral, 28, decidiu se distanciar desse tipo de homem machão. Sua maior frustração, e também a de amigas, é que eles não entendem o sexo oposto.

Os másculos, “que te pegam e te jogam na cama”, são ensinados a ser assim e as mulheres educadas a gostar, ela avalia.

“A sedução muitas vezes está ligada ao ludibriar. Isso me desagrada. O homem doce te encanta, te conquista, te olha diferente. Me sinto muito mais seduzida”, diz. “Um homem assim não se importa muito de ser quem é, existe muita personalidade. Tem um tesão nisso”, completa.

Quando passou a se envolver só com héteros desligados da masculinidade, Cabral diz que as conversas fluiram melhor e ela só começou a ter orgasmos com aqueles que a ouviam. Há dois anos, vive uma relação não-monogâmica com um homem que também é bissexual. O casal já sofreu homofobia, disseram “achava que ele era viado”.

Para Vera Gasparetto, pesquisadora do Instituto de Estudos de Gêneros da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), o tema está cercado de estereótipos sobre os papéis femininos e masculinos. Historicamente, foi construída a ideia de que as mulheres “devem ser sensíveis e quietinhas, e os homens provedores e fortes”. Isso prejudica ambos os lados.

“Quando produzimos um homem macho, viril, que entende que tem o controle sobre o corpo da mulher, levamos à violência doméstica e de gênero”, afirma. No caminho contrário, muitos héteros cis não têm se enxergado nesse padrão, observa.

A partir do cansaço desse modelo rígido, há um novo movimento para rever relações, como a tendência de mulheres optarem por ficar solteiras, e de buscar conexão com héteros afeminados. “Isso pode partir de um desejo por parceiros com resistência a padrões patriarcais”, avalia a pesquisadora.

A sociedade vê como afeminado aqueles com delicadeza no trato, gentis –características normalmente atribuídas às mulheres-, e estética que foge do “marombado”, diz Gasparetto. O feminino é desvalorizado, visto como negativo.

“Não é homem por que é feminino? Piadinhas como ‘ele é uma bicha, uma mulherzinha’, os colocam como inferiores.”

Foi pelo humor, mas respeitoso, que o humorista Leandro Leitte, 25, decidiu abordar o assunto. Há seis anos, criou o personagem do presidente da satírica Associação Brasileira dos Héteros Afeminados. Ele mesmo se considera um. “Tenho alguns trejeitos. Eu não imaginava, mas meninas que queriam se relacionar comigo falavam que juravam que eu era gay. Minha mulher fala que eu sou uma farsa”, diz.

Leitte começou com um show em Manaus e já rodou o país com o personagem. Seus vídeos fazem sucesso e o perfil no Instagram acumula 10 mil seguidores. “É a associação que mais cresce no Brasil”, brinca. Ser confundido é o primeiro mandamento para ser aceito, diz.

Hoje, os homens estão mais abertos para entrar na brincadeira e entender que podem ser do jeito que quiserem, ele observa. “Qualquer coisa era ‘coisa de gay’. Os jovens estão entendendo que certas brincadeiras não mexem com a sexualidade”, afirma o humorista. “Não é o modo de falar, a entonação da voz. O que vai definir a heterossexualidade de um homem é se relacionar só com mulheres.”

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