A revolução começa no jardim
Política e felicidade, ou, infelicidade, se aproximam muito. Prazer, riqueza, honra, poder e distinções sociais. A felicidade se correlaciona com essas coisas

Nesta semana deparei-me com o seguinte comentário do artigo meu sobre o filme O Agente Secreto: “Grata surpresa pedro@sahium! Sei que é um ano político e acredito que tenha um início eleitoral nessa postagem, mas fico feliz… (sic)”. O que eu queria dizer para a leitora é que eu também fico feliz com a felicidade dela, mas que a minha felicidade está, em primeiro lugar, no ato de escrever – e não em escrever para uma outra coisa, ou outro fim.
Escrevo porque isso me deixa feliz. Mas saiba que todo ano é político. Fazemos política o tempo todo, porque “o preço do pão, da farinha, do aluguel e do sapato depende de decisões políticas”.
Meu sobrinho estudou medicina porque, dentre outras coisas, recebeu financiamento universitário do Governo, e isso é política; uma amiga professora comprou uma casa, graças ao financiamento do Minha Casa Minha Vida, política; trabalhadores que ganham até 5 mil estão isentos de imposto de renda, política outra vez. E o que dizer do SUS, dos Institutos Federais de Educação, das escolas estaduais e municipais que garantem ensino público e gratuito. Coisas necessárias à sobrevivência e bem estar de uma maioria de cidadãos brasileiros. Isso se chama políticas públicas.
Política e felicidade, ou, infelicidade, se aproximam muito. Prazer, riqueza, honra, poder e distinções sociais. A felicidade se correlaciona com essas coisas. Mas mesmo elas estão sujeitas a uma submissão classista, cultural, regional, teológica. Para alguns, riqueza é ter uma casa própria; para outros, é ter uma ilha própria. Eu acredito, porém, que a felicidade pessoal depende de uma composição de “bens externos” e “virtudes morais”.
Eu li essa semana nos jornais: “As 12 pessoas mais ricas do mundo detêm agora mais do que metade da humanidade, (4,6 bilhões de pessoas)”. É imoral uma concentração de riqueza ilimitada como essa. O trabalho é a fonte de toda a riqueza, mas a esmagadora maioria de quem muito trabalha não desfruta do que produziu e ainda vive na miséria. Essa forma de riqueza concentrada está produzindo fraturas sociais graves.
Acho que o bispo Dom Pedro Casaldáliga teve uma fórmula interessante: “Não ter demais. Não ter só para si. Não ter às custas dos outros. Ter para servir. Fazer com que os outros também tenham o mesmo”. Acredito que essa é uma fórmula de ver a política com os olhos de uma vertente cristã.
Outro religioso, São Tomás de Aquino, disse que o mundo se divide em dois: as coisas da fruição e as coisas da utilidade. As coisas do mundo da fruição são aquelas que amamos por elas mesmas, não tem uma “outra finalidade”: dirigir motocicleta, ler um livro de poesia, brincar com a neta de 5 anos, colecionar moedas antigas, jogar biloquê, escrever.
No mundo das utilidades se encontra tudo que pode ser usado para alcançar um outro fim: garfo e faca, caneta, agenda, relógio, escova de dente, pente. O mundo das utilidades se estende por tudo aquilo o que “usamos para um fim”. Acredito que aqui a vertente cristã nos alerta de uma felicidade pura, presente nas coisas da fruição. Sem política, sem complicações, de forma transparente.
Eu sei que para o São Tomás, “apenas Deus pode ser objeto de verdadeira fruição”, porque Ele é o fim último da nossa alma, do nosso desejo mais profundo. Eu apenas queria usar as duas categorias dos santos citados para falar de uma felicidade “original”, aquela paradisíaca, que é “cuidar do jardim”. Mundo das fruições. Coisa em si.
Talvez essa ideia nos auxilie a enxergar o que ainda não vimos. Por exemplo: precisamos aprender a fazer do nosso trabalho aquilo que as crianças fazem com o brinquedo. Fomos feitos para brincar. Quem sabe assim curamos a terra e, no mesmo movimento, curamos as pessoas.
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