Erika Hilton na Comissão da Mulher expõe divisão na esquerda sobre pauta trans
Debate revela divergências internas e amplia tensão no campo progressista

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A reação à direita não surpreendeu ninguém quando a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) foi eleita por pares, com 11 votos a favor e dez em branco, para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. Houve grita generalizada sustentando que Hilton, primeira deputada federal trans junto com Duda Salabert (PDT), não é mulher coisa nenhuma. Até aí esperado, dada a aversão à transgeneridade no grupo.
Mas o desconforto não ficou restrito a esse cercadinho ideológico. Em setores da esquerda, sua eleição também criou divisões. São dissidentes que se dizem alinhadas a pautas progressistas sem deixar de questionar se uma mulher trans deveria liderar o colegiado. A posição majoritária no campo é a de reconhecer mulher trans como mulher.
Um termômetro: comentários num post do ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) classificando a rejeição à presidência de Hilton como transfobia. “Extrema direita, gente? Ao meu redor, um caminhão de mulher de esquerda achando isso um absurdo”, escreveu a psicanalista Ana Luiza Dalcanal.
Letícia Nascimento, que lidera o Sagrado Feminino Real, projeto voltado à “espiritualidade feminista que se pauta na experiência material das mulheres”, também se manifestou: mulheres “críticas de gênero” seriam “hostilizadas” e tachadas de “fascistas de direita” ao “apontar incongruências do transativismo”.
Essa linha argumentativa se ancora em opiniões como a de Reem Alsalem, relatora Especial da ONU sobre violência contra mulheres. Para ela, pode-se adotar uma identidade de gênero diferente da de nascimento, mas isso não implica acesso automático a todos os direitos de “mulheres biológicas”.
Alsalem esteve no Brasil às vésperas do Dia da Mulher, e sua posição provocou repúdio do Conselho Nacional de Direitos LGBTQIA+. Ligado ao governo federal, o grupo mencionou “segmentos sociais radicais que flertam com a transfobia e a demonização de corpos e subjetividades trans” ao criticá-la.
Hilton, em pronunciamento sobre a onda de ataques a ela, disse não ligar para “a opinião de transfóbicos e imbeCIS”. Trocadilho com “cis”, que é quem se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer.
A percepção de que nascer com aparelho reprodutivo feminino é inalienável à condição feminina é muitas vezes vinculada às chamadas radfems, ou feministas radicais.
Mas não são só elas. J.K. Rowling, criadora da série Harry Potter, é notória crítica da pauta trans. No Brasil, a Matria (Associação de Mulheres, Mães e Trabalhadoras do Brasil) defende a “importância do marcador sexo” nesse debate.
“Mulheres são um grupo definido por uma realidade material, o sexo feminino, e muitas das políticas públicas existentes foram construídas justamente a partir dessa realidade”, defende Clarice Saadi, diretora da organização. E correm o risco de serem relativizadas se isso não for levado em conta, segundo ela.
Saadi dá como exemplo a penitenciária feminina do Distrito Federal. “Há 86 pessoas do sexo masculino alojadas no presídio feminino, e as mulheres relatam serem constrangidas e assediadas pelos travestis que foram transferidos para lá com base em uma autodeclaração de gênero”, ela diz, usando sempre o pronome masculino para se referir a esse grupo.
A nova presidente da Comissão da Mulher, na sua visão, não chancelaria um projeto de lei que vete a presença de trans e travestis nesses presídios. Isso é ignorar a “realidade objetiva das mulheres”, diz.
Letícia Nascimento, do projeto Sagrado Feminino Real, vai pela mesma toada. Quando se fala em direitos da mulher, parte-se de “corpos que nascem sob determinadas condições biológicas e que, a partir disso, são socializados em uma sociedade patriarcal para ocupar posições específicas, marcadas por desigualdades estruturais como controle reprodutivo, exploração sexual e doméstica”.
Defensores da liderança de Hilton argumentam que mulheres ditas biológicas não representam automaticamente todas as mulheres, já que experiências variam conforme classe, raça e contexto social. Uma mulher rica pode não vivenciar problemas de mulheres pobres, uma branca os de uma negra etc. Sob essa ótica, a representação política não deve se basear apenas na identidade, mas na capacidade de atuar sobre diferentes realidades.
Autora de “Quando Me Descobri Negra”, Bianca Santana vê a psolista como “duplamente qualificada” para o papel: é parlamentar eleita e mulher comprometida com os direitos femininos. Para ela, descredibilizá-la revela transfobia, já que não há impedimento legal ao cargo.
A psicanalista Vera Iaconelli, também colunista do jornal, vai além: ser trans não é ônus, é bônus, porque Hilton “trabalha com uma minoria dentro de uma minoria”. Além de trans, é negra. “Então a gente tem recorte de gênero e de raça. E ela vem de uma origem periférica.” Conseguiria, assim, ter um olhar mais sensível para um grupo tão marginalizado sem desconsiderar mulheres cis e brancas, diz.
A ginecologista Daniela Menezes, idealizadora da Casa Caeté, voltada à saúde da mulher, diz que, “do ponto de vista médico, não existe fundamento para afirmar que uma mulher trans não pode representar mulheres”.
Claro que biologia importa. Ninguém nega a importância do rastreamento do câncer de próstata em uma mulher trans, por exemplo. “Mas essas categorias não foram feitas para definir papel social, identidade ou representação política.”
A categoria feminina tampouco seria homogênea na biologia. “Usar argumentos médicos para definir quem pode ou não pode representar mulheres é uma extrapolação indevida. A medicina descreve corpos, a política organiza os direitos.”
A hipótese de que a mulher trans é biologicamente homem simplifica um debate científico mais complexo.
Sexo é definido por um conjunto de elementos, que incluem cromossomos, hormônios, gônadas e características físicas. E eles nem sempre se alinham de forma rígida. Uma condição genética pode dar a alguém com cromossomos XY um corpo tipicamente feminino, por exemplo.
Além disso, terapias hormonais promovem mudanças relevantes no organismo de transgêneros, aproximando parâmetros fisiológicos do padrão feminino. Por isso, para alguns cientistas, valeria mais falar em espectro biológico do que resumir a humanidade em homem ou mulher.
A Casa Caeté fez uma provocação em post no Instagram: em 2024, os vereadores paulistanos da Câmara Municipal de São Paulo escolheram sete deles, todos homens, para a Comissão de Saúde, Promoção Social, Trabalho e Mulher. O barulho foi muito menor do que a eleição de Erika Hilton agora.






