Unesp terá programa para discutir masculinidade com professores e alunos
Ação ocorre na gestão da primeira reitora mulher da instituição, Maysa Furlan, que assumiu o cargo no início de 2025

ISABELA PALHARES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Unesp (Universidade Estadual Paulista) vai começar a oferecer uma formação para que professores, funcionários e alunos homens possam refletir sobre a masculinidade e entender sua responsabilidade na promoção de uma sociedade menos machista.
A ação ocorre na gestão da primeira reitora mulher da instituição, Maysa Furlan, que assumiu o cargo no início de 2025 tendo como um dos principais compromissos o enfrentamento à violência de gênero e o combate às discriminações.
Depois de investir em ações para fortalecer os canais de denúncia e acolhimento de vítimas de violência e preconceito, a reitoria agora aposta no envolvimento dos homens para promover mais equidade de gênero no ambiente acadêmico.
O programa, chamado Unesp sem Assédio, será ofertado a partir deste mês em todos os 24 campus da universidade com o objetivo é alcançar todos os homens que frequentam a instituição. A princípio, no entanto, a participação não será obrigatória.
“Até agora, a gente investiu em ações para identificar, prevenir e enfrentar o assédio sexual e moral na Unesp, mas para criar um ambiente que, de fato, tenha igualdade de gênero, precisamos envolver os homens nesse debate. Precisamos de um letramento para esses homens para que eles reflitam sobre a responsabilidade de seus comportamentos”, disse a reitora em entrevista à reportagem.
Nos últimos anos, a Unesp enfrentou casos de grande repercussão de denúncias de assédio de professores contra alunas. Ao menos dois docentes foram demitidos pela universidade após análise das denúncias.
“Situações de assédio moral e sexual aconteceram na Unesp em um passado não muito distante. O que observamos é que eles passaram a ser denunciados depois que fortalecemos os canais de denúncia. Quando a universidade deixou claro que não toleraria mais o assédio, as denúncias vieram à tona.”
“Agora, vamos envolver os homens. Queremos que eles entendam e também identifiquem comportamentos machistas, discriminatórios, de assédio, sem que precisem ser denunciados, sem que precisem fazer novas vítimas”, completa a reitora.
O programa será ofertado em parceria com o Instituto Memoh, grupo especializado no debate sobre masculinidades. As atividades funcionam com rodas de conversa, onde os homens são incentivados a falar sobre comportamentos e angústias e são convidados a refletir sobre ações nocivas da masculinidade.
“Estamos apostando que a s estratégias de convencimento vão ser suficientes para mobilizar os homens a participarem. Acho que, a partir do momento que eles entenderem que também são beneficiados em desconstruir alguns comportamentos, que também sofrem com o estigma do que é ser homem, vão querer participar.”
A reitora reconhece que potenciais agressores talvez tenham maior resistência em participar do programa, mas diz acreditar que a participação voluntária será mais efetiva.
“Nós percebemos, quando investigamos as denúncias de assédio, que a pessoa acusada tende a achar aquele comportamento muito natural, não vê nada de errado no que está sendo denunciado. Por isso, a ideia de instigar e proporcionar essa reflexão.”
Em 2024, a Unesp recebeu denúncias de 19 casos de assédio sexual e 18 de assédio moral. Em 2025, foram denunciados 40 casos (20 de cada um dos tipos).
“Nosso objetivo é trazer os homens para esse debate, queremos que eles sejam aliados nessa mudança. Para mudar uma realidade não podemos só agir depois que a situação aconteceu, foi denunciada e responsabilizar o acusado. Precisamos envolver todos os atores para uma mudança efetiva”, diz Maysa.
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