Com vagas sobrando, supermercados e padarias enfrentam crise para contratar e apontam motivos

Empresas relatam dificuldade para preencher cargos operacionais, enquanto especialistas apontam fatores econômicos, demográficos e comportamentais por trás do cenário

Daniella Bruno -
Com vagas sobrando, supermercados e padarias enfrentam crise para contratar e apontam motivos
(Foto: Reprodução)

Encontrar emprego já foi considerado um dos maiores desafios enfrentados pelos brasileiros.

Atualmente, porém, diversos setores da economia convivem com uma situação oposta. A dificuldade agora é encontrar trabalhadores para ocupar vagas disponíveis.

Supermercados, padarias, restaurantes, empresas de serviços e até propriedades rurais relatam dificuldades para preencher cargos operacionais.

Isso acontece mesmo com processos seletivos abertos durante boa parte do ano. Como consequência, muitos estabelecimentos enfrentam problemas para completar equipes e organizar escalas.

O fenômeno, chamado por empresários de “apagão de mão de obra”, tem alimentado debates em todo o país. Enquanto representantes do setor produtivo apontam a influência dos programas sociais, economistas defendem que as causas são mais amplas e complexas.

Empresários associam escassez de trabalhadores aos benefícios sociais

Parte dos representantes do comércio relaciona a dificuldade de contratação à ampliação de programas de transferência de renda. Entre eles estão o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o seguro-desemprego.

Segundo essa visão, a diferença entre os benefícios recebidos e os salários oferecidos em vagas de entrada ficou menor.

Por isso, alguns trabalhadores deixariam de buscar empregos formais ou migrariam para atividades informais.

Além disso, empresários afirmam que o chamado “salário de reserva” aumentou. Na prática, isso significa que muitas pessoas só aceitariam trabalhar por valores considerados mais atrativos.

Um dos estudos citados pelo setor foi realizado por Daniel Duque, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). O levantamento apontou redução da participação de homens jovens no mercado formal.

O resultado foi observado entre famílias elegíveis ao Bolsa Família após a ampliação do programa no período pós-pandemia.

Economistas apontam causas mais amplas

Por outro lado, especialistas em mercado de trabalho afirmam que a dificuldade de contratação não pode ser explicada apenas pelos programas sociais.

Segundo economistas, o cenário atual resulta da combinação de vários fatores econômicos, sociais e demográficos. Muitos deles vêm se intensificando nos últimos anos.

Além disso, a economia continua demandando mão de obra. Ao mesmo tempo, há menos pessoas disponíveis para trabalhar.

Como resultado, setores que dependem de muitos funcionários enfrentam mais dificuldades para contratar.

Entre os principais fatores apontados estão:

Taxas de desemprego historicamente baixas;
Envelhecimento da população brasileira;
Menor crescimento populacional;
Expansão dos aplicativos de transporte e entrega;
Crescimento da informalidade;
Mudanças nas preferências profissionais dos jovens.

Aplicativos e flexibilidade atraem parte da força de trabalho

Outro fator frequentemente citado é o avanço das plataformas digitais.

Aplicativos de transporte e entrega oferecem mais autonomia e flexibilidade de horários. Essas características atraem principalmente os trabalhadores mais jovens.

Dessa forma, muitos profissionais preferem atividades que permitem definir a própria rotina. Em contrapartida, empregos tradicionais exigem horários fixos e presença presencial diária.

Vagas mais afetadas

  • Operadores de caixa;
  • Repositores;
  • Estoquistas;
  • Auxiliares de serviços gerais;
  • Atendentes;
  • Trabalhadores de apoio operacional.

Em muitos casos, essas funções exigem presença constante e trabalho presencial. Por isso, a contratação se tornou ainda mais desafiadora.

Impactos já são sentidos pelas empresas

A falta de candidatos já provoca reflexos diretos na rotina das empresas.

Além da dificuldade para preencher vagas, muitos estabelecimentos registram aumento da rotatividade. Também enfrentam problemas para manter escalas completas de trabalho.

Consequências observadas pelo setor

  • Aumento do turnover;
  • Equipes reduzidas;
  • Sobrecarga de funcionários;
  • Maior tempo para preencher vagas;
  • Ajustes no horário de funcionamento;
  • Revisão das estratégias de recrutamento.

Em alguns casos, empresas ampliaram a busca por aposentados e trabalhadores mais experientes. A medida busca compensar a escassez de candidatos em determinadas funções.

Debate continua sem consenso

Embora empresários e economistas concordem que existe dificuldade para contratar, não há consenso sobre a principal causa do problema.

Enquanto representantes do comércio defendem que benefícios sociais influenciam a decisão de parte dos trabalhadores, especialistas apontam outros fatores relevantes.

Entre eles estão as mudanças demográficas, as novas formas de geração de renda e as transformações nas expectativas profissionais.

Dessa forma, o chamado “apagão de mão de obra” continua no centro das discussões sobre o mercado de trabalho brasileiro.

O tema afeta principalmente setores que dependem de grande quantidade de funcionários para manter suas atividades diárias.

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Daniella Bruno

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e estagiária de SEO do Portal 6, em Goiânia. Atua na produção e otimização de conteúdos digitais, com foco em matérias soft sobre comportamento, curiosidades e temas do cotidiano.

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