Abelhas sem ferrão se tornam os primeiros insetos do mundo a obter direitos legais

Peru reconhece legalmente espécies nativas da Amazônia como sujeitos de direitos, em uma medida inédita para proteger a biodiversidade e os povos tradicionais

Isabella Valverde Isabella Valverde -
Abelhas sem ferrão se tornam os primeiros insetos do mundo a obter direitos legais
(Foto: Reprodução)

Pela primeira vez na história, insetos passam a ter direitos reconhecidos por lei. O Peru se tornou o primeiro país do mundo a garantir proteção jurídica direta às abelhas sem ferrão da Amazônia, reconhecendo essas espécies como sujeitos de direitos e não apenas como recursos ambientais.

A medida representa uma mudança profunda na forma como a conservação é tratada. Em vez de focar apenas na exploração controlada da natureza, a legislação reconhece o direito dessas abelhas de existir, se reproduzir e manter seu papel no equilíbrio ecológico da floresta.

Diferentemente da abelha europeia, introduzida em diversas regiões do planeta, as abelhas sem ferrão são nativas da Amazônia e convivem há milhares de anos com outros organismos do bioma. Elas não picam, não deslocam espécies e mantêm relações estáveis com a vegetação local, sendo fundamentais para a polinização da floresta tropical.

Esses insetos são responsáveis pela reprodução de grande parte da flora amazônica e sustentam culturas importantes, como cacau, café e frutas nativas, especialmente em sistemas agroflorestais usados por comunidades tradicionais. Sem elas, muitos ciclos naturais simplesmente deixam de funcionar.

Apesar dessa importância, as abelhas sem ferrão ficaram durante décadas fora das políticas públicas e dos programas oficiais de proteção ambiental. A ausência de dados, reconhecimento e financiamento contribuiu para um declínio silencioso das populações.

Hoje, a sobrevivência dessas espécies é ameaçada por uma combinação de fatores. O avanço do desmatamento, o uso indiscriminado de pesticidas, as mudanças climáticas e a competição com espécies invasoras, como as abelhas africanizadas, vêm pressionando os ecossistemas amazônicos de forma crescente.

O novo marco legal surgiu a partir de anos de trabalho de pesquisadores em parceria com comunidades indígenas. O conhecimento tradicional, transmitido ao longo de gerações, foi decisivo para mapear colmeias, identificar espécies e demonstrar a relação direta entre a perda da floresta e o desaparecimento das abelhas.

Durante a pandemia, o interesse pelo mel produzido por essas espécies chamou atenção. Utilizado como remédio natural em regiões isoladas, ele passou por análises científicas que identificaram compostos com propriedades antibacterianas, anti-inflamatórias e antioxidantes, reforçando seu valor ecológico e cultural.

O reconhecimento nacional ocorreu em 2024, quando uma lei passou a classificar oficialmente as abelhas sem ferrão como espécies nativas do Peru. A partir disso, municípios amazônicos avançaram ainda mais. Cidades como Satipo e Nauta aprovaram normas locais que garantem às abelhas direito a habitat saudável, proteção contra envenenamento e até representação legal em casos de dano ambiental.

Na prática, isso obriga o poder público a adotar medidas concretas, como reflorestamento, controle rigoroso de agrotóxicos, apoio à pesquisa científica e ações preventivas contra impactos ambientais.

O debate também expôs um problema histórico. Décadas atrás, experiências para aumentar a produção de mel em regiões tropicais levaram à disseminação das abelhas africanizadas, mais produtivas, porém agressivas. Essas espécies passaram a ocupar espaços das abelhas nativas, alterando o equilíbrio ecológico e afetando práticas tradicionais.

Em áreas da Amazônia peruana, comunidades relatam dificuldade crescente para encontrar colmeias que antes estavam próximas. Em alguns casos, resíduos de pesticidas já foram detectados no mel, inclusive em regiões distantes da agricultura intensiva.

A nova legislação não resolve todos os problemas de imediato, mas muda o ponto de partida. Ao reconhecer direitos à biodiversidade, o Peru estabelece um precedente inédito e cria instrumentos legais para proteger espécies essenciais à vida na floresta.

A iniciativa já desperta interesse internacional e começa a inspirar debates em outros países. A ideia de que a natureza pode ter direitos próprios, antes vista como radical, passa a ganhar espaço no debate ambiental global.

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Isabella Valverde

Isabella Valverde

Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, com passagens por veículos como a TV Anhanguera, afiliada da TV Globo no estado. É editora do Portal 6 e especialista em SEO e mídias sociais, atuando na integração entre jornalismo de qualidade e estratégias digitais para ampliar o alcance e o engajamento das notícias.

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