Nessa ilha do Caribe, moradores são proibidos de frequentar as praias

Em diversos trechos do litoral, moradores locais são proibidos de frequentar praias que, por gerações, fizeram parte da rotina das comunidades

Pedro Ribeiro Pedro Ribeiro -
Nessa ilha do Caribe, moradores são proibidos de frequentar as praias
(Foto: Captura de Tela/YouTube)

Para quem visita a Jamaica, o cenário parece um cartão-postal perfeito: mar azul-turquesa, areia branca e resorts de luxo à beira-mar. O que muitos turistas não sabem é que, por trás dessa imagem paradisíaca, existe uma realidade cada vez mais dura para quem vive na ilha.

Em diversos trechos do litoral, moradores locais são proibidos de frequentar praias que, por gerações, fizeram parte da rotina das comunidades.

O problema se intensificou nos últimos anos com a venda de áreas costeiras para empreendimentos privados. Um exemplo emblemático é a baía de Mammee, no litoral norte da Jamaica, que durante décadas foi espaço de convivência, pesca artesanal e lazer para moradores.

Após a área ser vendida para a construção de um resort e residências de alto padrão, muros de concreto passaram a bloquear o acesso ao mar, afastando pescadores e famílias da região.

Situações semelhantes se repetiram em outros pontos da ilha. O acesso ao rio Roaring, tradicional ponto de banho para a população local, também foi fechado depois que terrenos vizinhos foram vendidos para a construção de residências particulares.

Para ativistas, o impacto vai além da perda do lazer: trata-se da ruptura de laços culturais e econômicos profundamente ligados ao litoral.

Embora a Jamaica tenha mais de mil quilômetros de costa, apenas cerca de 0,6% das praias oferecem acesso público livre, segundo dados de movimentos locais que defendem o direito ao litoral.

Enquanto isso, o turismo segue em crescimento acelerado. Em 2024, a ilha recebeu 4,3 milhões de visitantes, número recorde, atraídos justamente pelas praias que se tornaram cada vez menos acessíveis aos próprios jamaicanos.

Grande parte dessa situação está ligada a uma legislação criada ainda no período colonial. A Lei de Controle das Praias, de 1956, estabelece que o litoral pertence ao Estado e que o acesso público não é um direito garantido, permitindo que áreas costeiras sejam transferidas à iniciativa privada. Na prática, a norma abriu caminho para décadas de privatização das praias.

Com a expansão dos resorts all-inclusive — modelos de hospedagem em que os turistas permanecem quase exclusivamente dentro dos complexos — o acesso local se tornou ainda mais restrito.

Hoje, apenas cerca de 40% da receita gerada pelo turismo permanece no país, enquanto novos empreendimentos seguem sendo anunciados, especialmente em áreas litorâneas.

Até 2030, a expectativa é de que mais 10 mil quartos de hotel sejam construídos na ilha.

A reação da população ganhou força a partir de 2021, com a criação de movimentos organizados que passaram a questionar judicialmente o fechamento das praias.

Atualmente, há ações na Justiça envolvendo áreas como a baía de Mammee, a praia de Providence, a praia Bob Marley, além de rios e lagoas tradicionais usados por comunidades locais. O objetivo é garantir que o acesso ao mar seja tratado como um direito coletivo.

Mesmo após desastres naturais recentes, como o furacão que atingiu partes da ilha, o governo segue incentivando o retorno do turismo como forma de recuperação econômica.

Líderes comunitários, no entanto, pedem que visitantes façam escolhas mais conscientes, evitando resorts que restringem o acesso às praias e priorizando negócios administrados por jamaicanos.

Apesar das restrições, ainda existem praias públicas e iniciativas locais que mantêm viva a conexão entre moradores, cultura e natureza.

Regiões como Negril, Treasure Beach, o litoral leste e áreas próximas à capital Kingston preservam espaços abertos ao público e oferecem experiências ligadas à identidade jamaicana.

Para quem vive na ilha, a reivindicação é simples: poder acessar o mesmo mar que sustenta a economia do país. Para muitos moradores, impedir esse acesso não é apenas uma questão turística ou legal, mas uma ameaça direta à própria existência das comunidades que cresceram à beira do Caribe.

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Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás. Colabora com o Portal 6 desde 2022, atuando principalmente nas editorias de Comportamento, Utilidade Pública e temas que dialogam diretamente com o cotidiano da população.

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