Salário de admissão bate recorde com apagão de mão de obra e alta do mínimo
Valor médio de admissão com carteira no Brasil cresceu 2,5% acima da inflação no mês retrasado ante mesmo período de 2024, a R$ 2.304
MAELI PRADO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A remuneração inicial no mercado formal de trabalho alcançou em dezembro o maior patamar da história para o mês, em meio a dificuldades de empregadores para atrair e reter funcionários e à alta do salário mínimo.
O valor médio de admissão com carteira no Brasil cresceu 2,5% acima da inflação no mês retrasado ante mesmo período de 2024, a R$ 2.304, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho e Emprego.
Os números foram levantados pelo economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4Intelligence, que aponta que o movimento é generalizado, mas mais perceptível nos empregos de baixos salários, necessidade de presença física e de menor qualificação.
São vagas que, cada vez mais, concorrem com a atratividade percebida pelos jovens em ocupações sem carteira, flexibilidade e remuneração imediata maior, como entregadores e motoristas de aplicativos.
Os hipermercados, por exemplo, que estão entre os maiores empregadores do país, ofereceram em dezembro um salário inicial médio de R$ 1.932, alta de 5,8% acima da inflação ante mesmo mês de 2024.
Tanto os bares quanto os restaurantes, que também estão entre os maiores empregadores do país, pagaram um salário inicial médio de R$ 1.880 –no primeiro caso, o valor representa um aumento real de 4,4% ante dezembro de 2024, e no segundo a alta é de 3,7% na mesma comparação.
No segmento de construção de edifícios, o valor médio de contratação em dezembro ficou em R$ 2.340, aumento real de 1%. Nos quatro casos citados, foram os maiores salários iniciais já registrados para meses de dezembro da série histórica, iniciada em 2007.
Os dados comparam o resultado de cada mês em relação ao mesmo período de anos anteriores por conta da sazonalidade do mercado de trabalho.
“O mercado de trabalho está aquecido, com o desemprego na mínima histórica e a taxa de rotatividade em patamar recorde. Para algumas posições, se há escassez de mão de obra, a forma de reter trabalhadores é elevar salários”, aponta Imaizumi.
O especialista em mercado de trabalho lembra que a carteira assinada passou a enfrentar competição de vagas com maior flexibilidade e salários mais altos. “Há outras alternativas onde é possível tirar mais dinheiro, como fazer entregas no final de semana, serviços de delivery e transporte por aplicativos.”
Há também uma questão geracional, diz Imaizumi. “As novas gerações estão entrando no mercado de trabalho mais escolarizadas. Quem tem uma educação melhor vai ser mais resistente a fazer esforço físico na construção civil ou ser doméstica, por exemplo.”
A tendência foi capturada pela última Sondagem de Escassez de Mão de Obra do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), realizada entre outubro e novembro de 2025 com 3.763 empresas.
A pesquisa mostra que 18,9% daquelas que relatam dificuldades para contratar e reter funcionários aumentaram salários, percentual que era de 13,7% no ano anterior.
Entre as ouvidas, 36,2% afirmaram ainda que ampliaram a concessão de benefícios (eram 32,4% na mesma pesquisa realizada no final de 2024).
“As empresas que mais informaram aumento de salários foram as de construção; hiper e supermercados e mercearias; produção de vestuário; produção de produtos farmacêuticos e serviços de alojamento”, aponta Rodolpho Tobler, economista do FGV Ibre.
O levantamento registra que 62,3% das empresas ouvidas têm dificuldades em contratar e reter mão de obra, contra 58,7% no mesmo levantamento feito no ano passado.
“Estamos vendo uma mudança no mercado de trabalho. As ocupações com maior necessidade de alta de salário são aquelas que competem com outras possibilidades, que vieram com a digitalização da economia, e com os benefícios sociais”, diz Tobler.
Imaizumi, da 4Intelligence, lembra que o aumento da remuneração também está relacionado à expansão real do salário mínimo. Entre 2019, ano anterior à pandemia, e este ano, o valor teve crescimento de 62,4%, para uma inflação que avançou 45% no mesmo período.
“O salário mínimo é o balizador para a maior parte das posições no mercado formal. Se ele cresce acima da inflação, como vem acontecendo, os salários também sobem”, aponta.
Denise de Freitas, gerente de Recursos Humanos do Roldão Atacadista, afirma que a rotatividade sempre foi um desafio, e que a principal dificuldade da rede, que possui cerca de 4,5 mil funcionários, é reter mão de obra.
O Roldão optou, no ano passado, por aumentar o salário de contratação dos açougueiros que trabalham nas lojas, além de flexibilizar a jornada de trabalho de todas as ocupações, de sete horas diárias de trabalho para seis horas. A escala adotada é a 6×1.
“Antes exigíamos o segundo grau completo, agora investimos na formação interna, com programas de estágio. Também contratamos trabalhadores 50+ para fazer inclusão e ampliar ao máximo as possibilidades”, diz.
No dia a dia, a rede sente a competição com vagas autônomas ou de salários mais altos.
“Estamos vivendo o pleno emprego e a concorrência de vagas de autônomos. Muitos funcionários comemoram a flexibilização da jornada, pois assim conseguem trabalhar em outros empregos”, afirma Freitas.
A dificuldade de contratação vem levando empresas do varejo a flexibilizarem a escala 6×1, entre outros incentivos, como forma de tentar reter funcionários –o movimento ocorre em meio a discussões sobre o fim do modelo no Brasil. O projeto sobre o tema é uma das prioridades do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Congresso.
A Cobasi, por exemplo, passou a oferecer o segundo domingo de folga no mês –por lei, quem trabalha no comércio deve folgar ao menos um domingo.
Daqui para a frente, a expectativa é que o mercado de trabalho continue em expansão, mas a taxas mais modestas de crescimento.
“Deve haver uma alta mais alinhada com o crescimento econômico menos robusto do que observamos nos últimos anos”, diz Imaizumi.






