Quando a falta de motivação deixa de ser preguiça e vira sinal de alerta, segundo a psicologia
Psicólogos explicam como a falta de motivação persistente pode estar ligada à ansiedade, depressão e esgotamento

Você promete que vai começar na segunda-feira. A segunda chega — e nada acontece.
A culpa vem logo depois: “Eu sou muito preguiçosa”. Mas e se não for preguiça?
A psicologia contemporânea tem sido clara ao apontar que a falta de motivação constante pode ser mais do que desinteresse ou indisciplina.
Em muitos casos, ela funciona como um sintoma silencioso de sofrimento emocional, como ansiedade, depressão ou esgotamento mental.
Ignorar esse sinal pode aprofundar um ciclo de frustração, baixa autoestima e isolamento.
O que está por trás da “preguiça” persistente?
Sentir-se indisposto ocasionalmente é parte da vida.
O problema surge quando a apatia se torna frequente, prolongada e começa a comprometer trabalho, estudos e relações pessoais.
De acordo com especialistas em saúde mental, o cérebro sobrecarregado por estresse ou emoções negativas tende a reduzir a disposição para agir.
É como se ele acionasse um modo de economia de energia para se proteger.
Nesses casos, o que parece falta de vontade pode ser, na verdade, um mecanismo de defesa diante de um desgaste emocional intenso.
A pessoa não deixa de agir porque não quer — mas porque o peso psicológico da tarefa se torna maior do que sua capacidade de enfrentamento naquele momento.
Preguiça e procrastinação são a mesma coisa?
Apesar de frequentemente usadas como sinônimos, preguiça e procrastinação têm diferenças importantes do ponto de vista psicológico.
A procrastinação envolve adiar tarefas que a própria pessoa deseja concluir.
Esse adiamento costuma estar ligado ao medo de falhar, ao perfeccionismo ou à dificuldade de lidar com emoções desconfortáveis.
Já a preguiça se manifesta como uma resistência generalizada ao esforço, mesmo quando as consequências negativas são previsíveis.
Apesar das diferenças, ambas podem ter raízes semelhantes: baixa autoestima, sintomas depressivos, ansiedade constante ou esgotamento emocional.
Quando esses comportamentos se tornam padrão, o impacto no bem-estar tende a se ampliar.
O que a ciência revela sobre o impacto na saúde
A relação entre procrastinação crônica e saúde mental já foi investigada em pesquisas científicas.
Um estudo longitudinal publicado em 2023 no periódico JAMA Network Open acompanhou 3.525 estudantes universitários suecos ao longo de vários meses.
Os resultados indicaram que a procrastinação estava associada a níveis mais elevados de depressão, ansiedade e estresse.
Além disso, os participantes apresentaram pior qualidade de sono, maior sedentarismo, sentimentos de solidão e até dificuldades financeiras.
Os dados reforçam que a falta de motivação persistente não deve ser tratada apenas como falha pessoal, mas como possível indicador de desequilíbrio emocional que merece atenção.
Estratégias que vão além da força de vontade
Superar a apatia não depende apenas de “se esforçar mais”.
Psicólogos defendem abordagens que priorizem regulação emocional e autocompaixão.
Entre as estratégias recomendadas estão:
- Dividir tarefas grandes em pequenas metas diárias, inspirando-se na filosofia japonesa do kaizen, que propõe melhorias graduais e constantes.
- Substituir a autocrítica pela autocompaixão, reduzindo o peso emocional do erro.
- Identificar gatilhos emocionais, como medo, ansiedade ou tédio, que podem estar por trás da evitação.
- Criar uma rotina equilibrada, com horários definidos para descanso e produtividade, respeitando os limites físicos e mentais.
Pequenas mudanças consistentes tendem a ser mais eficazes do que tentativas radicais e exaustivas de transformação.
Quando é hora de procurar ajuda?
Nem toda desmotivação exige acompanhamento profissional.
No entanto, alguns sinais indicam que o quadro pode ir além de uma fase passageira:
- Falta de motivação por mais de duas semanas, acompanhada de tristeza persistente ou sensação de vazio
- Queda acentuada na produtividade e dificuldade de concentração
- Alterações no sono ou no apetite sem causa física aparente
- Isolamento social e perda de interesse por atividades antes prazerosas
Esses sintomas podem estar relacionados a condições como depressão, transtornos de ansiedade ou burnout.
Reconhecer que a falta de motivação pode ser um sinal de alerta é um passo importante para romper o ciclo da culpa e buscar por ajuda.
Em vez de rotular como preguiça, vale perguntar: o que minha saúde emocional está tentando dizer?
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