Meio século depois, ex-governador de Goiás relembra articulações com o regime militar para criação do Daia

Irapuan Costa Júnior contou ao Portal 6 que Governo Federal foi responsável por 80% do recurso que deu início ao distrito

Natália Sezil -
Meio século depois, ex-governador de Goiás relembra articulações com o regime militar para criação do Daia
Irapuan Costa Júnior foi o governador de Goiás responsável pela implantação do Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia), em 1976. (Foto: Acervo pessoal)

Intensas mobilizações, um investimento expressivo do Governo Federal e a “obsessão do anapolino em transformar Anápolis no que eles chamavam de ‘Manchester goiana'”. Para o ex-governador Irapuan Costa Júnior, foram estes alguns dos fatores essenciais para a implementação do Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia) em 1976.

Praticamente 50 anos depois, o político relembrou ao Portal 6 como foram as negociações que possibilitaram a criação do polo industrial e avaliou: “nós fomos muito felizes com o trabalho conjunto. De certa forma, conseguimos transformar Anápolis na Manchester Goiana”.

A referência é à cidade inglesa que é considerada o berço da Revolução Industrial, ainda no século XVIII. Para se ter noção, foram lá que surgiram as primeiras fábricas de tecido de algodão e ferrovias. Em Anápolis, a ideia era semelhante, mas focava, especialmente, nos produtos agrícolas.

Irapuan relembra: “Goiás era um estado apenas de produção primária. Por isso se chamou distrito agroindustrial, porque a ideia era industrializar o arroz, o feijão, o milho, a soja que estava brotando nessa época”.

Para ele, a consolidação do Daia como polo farmoquímico surgiu naturalmente e “foi uma grande felicidade”.

Ações fazem parte do programa Anápolis Pra Frente, lançado durante as comemorações pelos 119 anos do município. (Foto: Codego)

O resultado foi a longo prazo: com a adesão cada vez maior de indústrias desse setor, um entroncamento logístico (com as BRs 153, 060 e 414), e o Porto Seco, o Daia já se tornou um dos maiores hubs industriais do Brasil e da América Latina.

Em 2026, o distrito abriga cerca de 200 empresas, com estimativa de 30 mil empregos gerados de forma direta ou indireta.

Como foram as articulações

Antes de assumir como governador, em 1975, Irapuan foi prefeito de Anápolis por cerca de dois anos. Entrou na vida política em 1973, e conta que já tinha a ideia de fomentar a indústria da cidade.

“Eu tinha vários amigos de Anápolis que só falavam da industrialização. Só tocavam nesse assunto”, relembra. Ao compor o Executivo, achou apoio da Associação Comercial e Industrial de Anápolis (ACIA) e de outras entidades, mas também encontrou o primeiro obstáculo: o Legislativo.

“Eram 11 vereadores. Sete eram da oposição e apenas quatro do nosso lado. Fiz uma reunião com eles e pedi que nos uníssemos para fazer de Anápolis o grande polo industrial de Goiás”. Funcionou: conseguiu o apoio de três opositores, alcançando maioria na Casa.

Com adesão da Câmara Municipal, foi possível elaborar o projeto do Daia. Depois, o governador Leonino Caiado declarou o terreno como área de utilidade pública – usada para construir obras que beneficiam todos.

Investimentos federais expressivos

A proposta ganhou ainda mais fôlego quando Irapuan ocupou a cadeira no Governo Estadual. A partir daí, desapropriou a área e se reuniu com o presidente da República, então o General Ernesto Geisel – em meio ao regime militar.

O encontro era necessário para angariar recursos financeiros. “Fizemos um orçamento e vi, na época, que Goiás conseguia bancar desse projeto mais ou menos uns 20%. Falei que precisávamos que o Governo Federal bancasse o restante”, explica.

Inauguração do Daia em 09 de novembro de 1976, com presença do presidente da República, Ernesto Geisel.

Inauguração do Daia em 09 de novembro de 1976, com presença do presidente da República, Ernesto Geisel. (Foto: Acervo pessoal)

“Ele então ligou para o ministro do Planejamento e disse: ‘o Irapuan vai aí, vai lhe levar um projeto que é do nosso interesse bancário’. Uma semana depois me ligaram dizendo que o projeto estava aprovado”.

Segundo o Memorial da Indústria, impulsionado pela Federação das Indústrias do Estado de Goiás (FIEG), o montante desembolsado pelo país, por meio do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDE), foi de 73 milhões de cruzeiros.

Inauguração do Daia em 09 de novembro de 1976.

Inauguração do Daia em 09 de novembro de 1976. (Foto: Acervo pessoal)

O cronograma passou a prever um ano para implantação, em uma obra que envolvia água, esgoto, energia elétrica e pavimentação. Irapuan avalia que a importância dessas construções ultrapassou os limites do Daia e afetou toda a cidade.

Detalha que, enquanto o governo fazia uma Estação de Tratamento de Água (ETA) para atender o distrito, o município ainda tinha deficiência no abastecimento, e acabava se beneficiando dessa mesma construção.

Expectativas futuras

O ex-governador defende que, 50 anos depois, o Daia ainda tem muito potencial de expansão, e pontua que o DaiaPlam (plataforma logística multimodal que prevê mais 1,7 milhão de m²), com subsídios estaduais e facilitação da adesão de empresas, é o caminho certo a se seguir.

Para isso, ele defende mudanças no Congresso Nacional, esperando que se “promova uma reforma administrativa, uma reforma fiscal bastante séria, que equilibre o orçamento federal, porque quando isso acontece, a economia brasileira normalmente cresce”.

“O brasileiro tem disposição para o trabalho, tem disposição para crescer. O Brasil tem condições muito favoráveis para abrigar grandes indústrias. Então nossa esperança está sempre acesa”, finaliza.

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Natália Sezil

Chegou no Portal 6 como estagiária de jornalismo e foi promovida a repórter. Apaixonada por boas histórias, gosta de ouvir as pessoas, entender contextos e transformar relatos em narrativas que informam e conectam o público.

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