Botequim de Anápolis teve papel fundamental para que Juscelino Kubitschek assinasse a ordem para a construção de Brasília

Nuvem de tempestade, pão com manteiga e "meia dúzia de curiosos" participaram do dia em que a cidade entrou na história da capital federal

Natália Sezil Natália Sezil -
JK, no Aeroporto Municipal de Anápolis durante sua campanha para a presidência em 1955. (Foto: Reprodução)
JK, no Aeroporto Municipal de Anápolis durante sua campanha para a presidência em 1955. (Foto: Reprodução)

Não é segredo que a construção de Brasília modificou consideravelmente a dinâmica do Brasil. A nova capital, instalada em um local estratégico no coração do país, não só mudou o espaço geográfico de Goiás, mas trouxe histórias ao estado que antes não existiam.

Anápolis é um exemplo disso: entrou na trajetória de Brasília em 1956, meses antes da Lei que determinava oficialmente a mudança da capital federal. Tudo por conta de uma tempestade.

Era 18 de abril de 1956 e Juscelino Kubitschek tinha planos para visitar Goiás. Ele já havia anunciado a proposta de deslocar a sede administrativa do país, mas ainda encontrava resistência entre alguns políticos.

Por isso, decidiu se reunir com o governador José Ludovico e marcar um evento na recém inaugurada Goiânia. Iria para a principal praça da cidade e assinaria ali a ordem de serviço que confirmaria a construção de Brasília.

Entretanto, uma chance de tempestade acabou mudando a rota. No livro de memórias “Por que construí Brasília”, publicado quase duas décadas depois do fato, o presidente relatou como tudo aconteceu.

JK conta que saiu do Rio de Janeiro pouco depois das 23h do dia 17 de abril, a bordo de um DC-3 – à época, apelidado de “carroça aérea”, porque voava devagar. Tudo corria dentro do esperado até às 03h da madrugada, quando começou uma pane.

“Sem qualquer pressão, o avião perdeu a rota e se deixou levar, sem rumo. Voávamos às cegas, ora em círculos, ora em linha reta, na expectativa de um desastre iminente”, relatou. O desastre nunca aconteceu.

Quando amanheceu, o piloto reconheceu a cidade de Morrinhos, a 132 km de Goiânia, e ajeitou a direção. Os tripulantes chegaram a ver a capital de Goiás, “com milhares de pessoas nas ruas”, mas a aterrisagem não foi possível.

JK compartilha que “uma nuvem branca e densa, como imenso floco de algodão, estacionou exatamente em cima da pista”. Tentaram pousar várias vezes, mas fracassaram em todas, e a solução acabou sendo seguir para Anápolis.

Em contraste com a capital, a cidade não tinha qualquer aglomeração. O aeroporto estava vazio, mesmo no prédio da administração. Sem pessoas por perto, o presidente decidiu entrar em um pequeno café, sentar em um canto e pedir uma “média com pão e manteiga”.

Em pouco tempo, algumas pessoas perceberam o barulho dos motores, entraram no estabelecimento e foram buscar o prefeito e o chefe político do município. JK, então, os explicou que estava com pressa: tinha, depois, um encontro com o presidente da Petrobrás em Manaus.

Resolveu assinar a mensagem ali mesmo, enviando-a ao Congresso em um plano muito diferente do inicial.

No livro, ele escreve: “o ‘ato público’, que deveria ter tido lugar na principal praça pública de Goiânia e na presença de milhares de pessoas, acabou sendo realizado no interior de um botequim, ao lado do aeroporto de Anápolis, e assistido por meia dúzia de curiosos”.

Ao todo, JK menciona Anápolis um total de 42 vezes ao longo de “Por que construí Brasília”. Além da ordem assinada no município, as citações acontecem, em sua maioria, por conta da proximidade com a capital.

Tratam da construção de estradas, da ferrovia, fazem menção a conhecidos, falam da existência de um depósito para materiais de construção, da importância da cidade no abastecimento da capital  e também da economia focada na produção de arroz.

Casa JK, tombada Patrimônio Histórico no Aeroporto de Anápolis.

Casa JK, tombada Patrimônio Histórico no Aeroporto de Anápolis. (Foto: Divulgação/Prefeitura de Anápolis

O restaurante onde Juscelino assinou a ordem de 18 de abril, localizado no aeroporto de Anápolis, passou a ser conhecido como Casa JK e, desde 2001, é tombado Patrimônio Histórico.

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Natália Sezil

Natália Sezil

Chegou no Portal 6 como estagiária de jornalismo e foi promovida a repórter. Apaixonada por boas histórias, gosta de ouvir as pessoas, entender contextos e transformar relatos em narrativas que informam e conectam o público.

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