Coordenador da primeira graduação de IA no Brasil avalia que expansão da área é boa, mas precisa ser feita com calma
Cursos de Inteligência Artificial oferecidos por universidades federais cresceram seis vezes em apenas um ano
Os cursos de graduação em Inteligência Artificial (IA) no Brasil cresceram seis vezes em apenas um ano. A oferta, que era de quatro na edição 2025 do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), passou a ser de 24 em 2026.
A Universidade Federal de Goiás (UFG) saiu na frente: foi a primeira instituição pública do país a oferecer uma graduação com foco exclusivo em IA. Agora, observa de perto enquanto outras seguem o exemplo, virando referência nacional.
Para o coordenador do bacharelado em IA da UFG, Anderson Soares, a notícia é boa – mas precisa ser acompanhada com calma. Ele explicou ao Portal 6 que a escassez de postos de trabalho existe há certo tempo, mas a velocidade pede cuidado.
“Os cursos demandam infraestrutura, e uma infraestrutura relativamente cara. Então temos que tomar cuidado para não fazer nenhum ‘puxadinho’ de um curso já existente”, detalha.

Anderson Soares, coordenador do curso de Inteligência Artificial da UFG. (Foto: Acervo pessoal)
Um levantamento feito pela Folha de São Paulo indica quais são os perfis das novas graduações. Elas se dividem em três modelos principais: cursos exclusivos de IA; combinados de ciência de dados e IA; e a união entre IA e engenharia de software. Alguns não surgiram do zero, mas foram reformulados para incluir a especialidade.
UFG é exemplo a ser seguido
A UFG, como pioneira, se torna um caso de sucesso a ser observado pelas semelhantes. Anderson afirma que há contato direto entre as instituições: “recebemos umas 12 comitivas, do Brasil inteiro, para conhecerem a nossa experiência”.
“Isso mostra uma maturidade bastante relevante, o que é bom – aprender com os outros é sempre mais rápido do que construir as próprias experiências”. Avalia: “acho que o crescimento nesse ano, em particular, deve-se em parte a esses resultados também”.
O coordenador explica que o avanço da IA foi impulsionado pelo surgimento, por exemplo, do Chat GPT – que permitiu que as pessoas entendessem, no dia a dia, como a inteligência artificial funciona. Ainda assim, isso não foi o suficiente para que o curso se expandisse tanto.
Para ele, trata-se de uma somatória: da popularização da ferramenta na sociedade, com a inserção no mercado de trabalho das primeiras turmas formadas em IA pela UFG. Os estudantes que ingressarem este ano farão parte da sétima turma; os primeiros colaram grau no início de 2024.
“Na prática, foi uma inserção muito boa e com remunerações muito interessantes para recém-formados, muito compatíveis… vários alunos trabalhando remoto para outros países, e com inserção na indústria brasileira também”, conta.
Curso em adaptação
Com os primeiros alunos já graduados, a avaliação da coordenação do bacharelado é de que o curso segue no caminho certo, precisando de pequenos ajustes que são naturais. Anderson explica que, dentro do Instituto de Informática da UFG (INF/UFG), a graduação em IA é tratada como um “experimento de novas práticas pedagógicas”.
Por isso, tópicos previstos no início da oferta, que cresceram ao longo deste tempo, vão sendo reforçados conforme aumenta a demanda. É o caso, por exemplo, do Processamento de Linguagem Natural (PLN).

Curso de IA tem observado avanço. (Foto: Divulgação)
Primeiros anos acima das expectativas
“Embora a gente tivesse uma alta expectativa, ela acabou se concretizando em um patamar ainda maior. Acho que muito pelo momento que acontece no mundo, também”.
Em questão de poucos anos, a nota de corte para a graduação em IA superou a de medicina, que já assumia a liderança há tempos. O feito data de 2025. Na prática, mostra que o curso estava sendo mais concorrido.
Dentre os principais resultados obtidos, Anderson destaca o sucesso dos alunos. “Acho que toda instituição de ensino deve ser medida por isso”.
Em segundo lugar, ressalta a percepção da indústria brasileira. O INF/UFG já conseguiu parcerias com mais de 70 empresas apenas nesta área, buscando ajudar a gerar inovações.
A relevância da IA se expande e alcança vários ramos do cotidiano e do mercado. O coordenador crava: “consolidou-se como um diferencial, mesmo para atividades que estavam distantes”.
“Isso é um fenômeno muito importante, porque a última grande evolução tecnológica nesse sentido foi a entrada dos computadores e da internet. Mas foram inserções mais lentas, ao longo de uma década. Agora vemos a IA se inserindo e reduzindo a popularização para anos”, disse à reportagem.
Investimentos
Anderson indica que os investimentos recebidos têm sido suficientes para explorar o potencial que os estudos de IA têm a oferecer.
Detalha: “nós temos contado com muito apoio, não só da indústria brasileira, mas também do Governo do estado de Goiás e do Ministério de Ciência e Tecnologia, para que a gente construa esse grande polo referencial e consiga ter uma instituição de referência para o Brasil e para o mundo”.
O profissional destaca que a área demanda investimento substancial em infraestrutura, e explica que se trata de uma “aliança hélice tríplice”, uma convergência entre a universidade, o poder público e o setor industrial, “cooperando para que se faça algo de impacto”.

Robô desenvolvido pelo Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia) da Universidade Federal de Goiás (UFG). (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
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