Em lavada, candidato de esquerda vence ultradireita e será próximo presidente de Portugal
Vitória de Seguro encerra um paradoxo ao mostrar que, no primeiro turno, candidatos identificados com a esquerda somaram cerca de 35% dos votos, enquanto os nomes da direita ultrapassaram 50%

João Pedro de Lima
de Lisboa, Portugal – António José Seguro, candidato da esquerda e quadro histórico do Partido Socialista, venceu de lavada as eleições deste domingo (8) e será o próximo presidente de Portugal.
Com 98,6% das urnas apuradas, o político que se apresenta como “democrata, progressista e humanista” tinha cerca 66,6% dos votos válidos, superando com facilidade André Ventura, do partido ultradireitista Chega foram mais de 30 pontos percentuais de vantagem, com Ventura marcando 33,4%.
A projeção da abstenção é entre 42 e 48%. No primeiro turno foi 47,7%. Isso significa que não houve um número significativo de pessoas que deixaram de votar.
Ventura reconheceu a derrota minutos depois da divulgação das primeiras projeções. “Desejo que Seguro seja um bom presidente porque os portugueses precisam”, afirmou o candidato do partido Chega.
“Espero poder liderar o espaço da direita a partir de agora.” Já Seguro, que deve discursar mais tarde, disse apenas: “Meu objetivo é servir ao meu país. O povo português é o melhor povo do mundo”.
Alguns municípios em estado de calamidade pública devido às chuvas que atingem Portugal só irão às urnas na semana que vem. Eles respondem, no entanto, por menos de 1% dos votos. As apurações no resto do país seguirão normalmente.
A vitória de Seguro encerra um paradoxo. No primeiro turno, candidatos identificados com a esquerda obtiveram cerca de 35% dos votos, enquanto os contendores à direita somaram mais de 50%. Como foi possível, nesse contexto, a vitória de um quadro histórico do Partido Socialista?
A resposta pode estar numa pesquisa da Universidade Católica Portuguesa realizada na semana anterior à eleição. Para a maior parte dos entrevistados, tratava-se não de uma disputa entre esquerda e direita, mas entre moderados e extremistas.
Venceu Seguro, um socialista moderado não apenas na atuação política, mas também no sobrenome e no slogan de campanha “Futuro Seguro”. O ultradireitista Ventura, que prometia sacudir Portugal com um “abanão”, ficou pelo caminho.
Em seu discurso no dia 18 de janeiro, logo após a divulgação dos resultados do primeiro turno, Ventura bem que tentou unir a direita em torno de seu nome. Não deu certo. Na semana seguinte, vários representantes da direita moderada abraçaram a candidatura de Seguro, entre eles o ex-primeiro ministro Aníbal Cavaco Silva, uma espécie de patriarca do conservadorismo português.
Seguro encarna igualmente uma demanda por previsibilidade. “Até recentemente os eleitores portugueses estavam acostumados a governos estáveis, onde moderados de direita e de esquerda se alternavam e cumpriam seus mandatos até o final, mas isso mudou depois da pandemia”, diz André Santos Pereira, professor de comunicação política na faculdade ISCTE e diretor-associado da consultoria Political Intelligence.
Em Portugal, o presidente não governa, mas tem o poder de dissolver o Parlamento em casos de crise política. Isso acontecia raramente em Portugal.
Ao longo de seu mandato, no entanto, Marcelo Rebelo de Sousa, de centro-direita, dissolveu o parlamento três vezes, no procedimento conhecido no país como “bomba atômica”. Duas delas por escândalos de corrupção e uma por paralisia do governo depois que a Assembleia da República rejeitou o Orçamento.
Seguro é visto como alguém que só dissolveria o Legislativo em último caso. “Ele é um político oriundo da esquerda que conversa bem com a direita”, afirma Santos Pereira.
Os portugueses apostam numa convivência pacífica entre o socialista Seguro e o premiê Luís Montenegro, que governa o país à frente da Aliança Democrática, uma coligação de centro-direita. “Seguro dialogou com a direita em tempos de crise, por que não faria isso hoje, uma época mais calma?”
Santos Pereira se refere a um episódio que marcou a carreira do presidente eleito. No início da década passada, Portugal contraiu dívidas astronômicas após a crise do euro, perdendo capacidade para se financiar.
Comprometeu-se com um ajuste fiscal draconiano para conseguir dinheiro junto a instituições multilaterais. Na ocasião, Pedro Passos Coelho, de centro-direita, era o primeiro-ministro, e Seguro liderava a oposição à frente do Partido Socialista.
Contrariando clamores da ala mais radical de sua sigla, o socialista optou por fazer uma “oposição responsável”, garantindo a governabilidade em troca de concessões para a classe trabalhadora. O ajuste foi duro, mas Portugal foi o primeiro país do sul da Europa a sair da crise do euro.
A atitude custou a carreira de Seguro, que foi apeado da liderança do partido e passou dez anos afastado da política. Perguntado sobre o episódio ao longo da campanha eleitoral, o socialista diz que não se arrepende do que fez.
Além da disputa entre moderados e extremistas, a eleição presidencial portuguesa representou o confronto entre uma visão imediatista e outra de longo prazo. Ventura brandiu seu tradicional discurso segundo o qual Portugal está estagnado há cinco décadas, desde o restabelecimento da democracia.
Seguro rebateu, mostrando o quanto Portugal se transformou desde que militares marcharam por Lisboa com flores nos canos de seus fuzis, na Revolução dos Cravos. O país se modernizou, tornou-se destino turístico e gastronômico, consolidou-se como pólo tecnológico e construiu um Estado de bem-estar social que, apesar dos problemas de financiamento, é considerado indispensável pela maioria dos portugueses.
Um dado do Barômetro da Lusofonia, divulgado na semana passada, mostra que Portugal é o país que mais preza a democracia entre as nações de língua oficial portuguesa.
Apesar dos bons números fiscais e do crescimento econômico acima da média europeia, os portugueses sofrem com crises nas áreas da saúde e habitação. Pelo menos até agora, o país vem apostando na moderação e na democracia como melhor caminho para resolver seus problemas.






