O ódio

Se não identificarmos como o ódio surge, não conseguiremos reacender a chama da esperança capaz de dissipar essa névoa tóxica que contamina nossos sentimentos e nossas relações

Pedro Sahium -
O ódio
Medusa. Caravaggio 1597 – Galeria Uffizi, Florença. (Foto: Reprodução)

Há algo curioso nas palavras, elas criam imagens dentro de nós. Se não quisermos que alguém pense na cor amarela, é melhor não pronunciá-la. No momento em que dizemos “amarelo”, surgem inúmeros objetos dessa cor — ou mesmo a própria cor em si. Então, se a intenção é falar de respeito, fraternidade, tolerância e amor, por que falar de ódio?

Contudo, acredito que, se não identificarmos como o ódio surge, não conseguiremos reacender a chama da esperança capaz de dissipar essa névoa tóxica que contamina nossos sentimentos e nossas relações. A primeira tarefa, portanto, é responder à pergunta: como nasce o ódio? Na sociedade atual, vemos o ódio dirigido contra imigrantes, estrangeiros, pobres, minorias e pessoas que vivem de forma considerada “não tradicional”.

O autor de Imitação de Cristo, o monge alemão do século XIV Tomás de Kempis, já identificava essa inclinação no coração humano:

Por pouco acusamos o próximo, e por muito nos escusamos;
Queremos vender muito caro e comprar bem barato;
Queremos que se faça justiça na casa do outro, e misericórdia e conivência na nossa casa;
Queremos que nossas palavras sejam tomadas em bom sentido, e somos melindrosos e exageradamente sensíveis às palavras do outro.

Séculos depois, pouco mudou. O “outro” continua sendo visto como ameaça, alvo de um maniqueísmo crônico que nos impede de reconhecer a fragilidade de um pensamento bipolar: a minha é “religião”; a do outro é “seita”. Os meus valores são positivos; os do outro, negativos.
Pergunto: em vez da condenação, não seriam possíveis a convivência tolerante e o respeito cordial para com quem difere de nossos padrões? Será tão difícil aceitar que ninguém é dono da verdade absoluta? E que a Verdade, quando nos alcança, pede de nós amor e misericórdia para com todos, sem exceção? A quem interessa essa visão que nos faz acreditar que somos superiores aos demais? O que torna o outro tão “merecedor” do nosso ódio?

A filósofa Carolin Emcke ressalta que o ódio não surge do nada; ele sempre possui um contexto específico que o explica e do qual brota. As razões que o sustentam são fabricadas por alguém, dentro de determinado quadro histórico e cultural. Hoje, muitas narrativas alimentam a sensação de que estamos cercados por inimigos que desejam destruir a sociedade. Nesse ambiente paranoico e conspiratório, instala-se a preocupação. Quando a preocupação nos domina, o factual parece desaparecer. As visões fantasmagóricas se agigantam, e passamos a enxergar apenas sombras ao nosso redor. A preocupação insiste em nos fazer ouvir apenas as narrativas da catástrofe iminente, da necessidade de excluir o diferente, aquele que não pensa, não sente ou não crê como nós. Assim, o outro se transforma em ameaça.

Por isso, Carolin Emcke nos exorta a observar com atenção os discursos difundidos nas redes digitais, nos jornais e nas postagens de influenciadores e criadores de conteúdo. Muitas vezes, a intenção mais profunda pode estar oculta, mas seus relatos acabam gerando sentimentos de ódio, rancor e ressentimento.

Diante disso, o melhor caminho é o discernimento. É buscar a sabedoria, examinar o próprio coração e aprender a direcionar nossa indignação não contra pessoas, mas contra aquilo que desumaniza: o mal, a soberba, a arrogância, o caminho perverso e a palavra que fere. Somente assim poderemos substituir o ódio pelo amor que restaura e pela esperança que reconcilia.

Siga o Portal 6 no Google News e fique por dentro de tudo!

Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

Você tem WhatsApp ou Telegram? É só entrar em um dos grupos do Portal 6 para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens. Basta clicar aqui e escolher.

+ Notícias

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Para mais informações, incluindo como configurar as permissões dos cookies, consulte a nossa nova Política de Privacidade.