Existência ou excesso de exposição – a escolha é sua
O homem virou um produto de si mesmo. Estamos sendo manipulados, e isso acontece num nível pré-consciente

Escrever um artigo por semana. O tema é livre. O dono do jornal — Portal 6 — é jornalista e empresário progressista e não me impõe nenhuma condição sobre o que escrever. “Liberdade total para o articulista”, disse-me ele, desde que, claro, eu assuma a responsabilidade daquilo que escrever.
O difícil, nisso tudo, é compartilhar um texto que seja significativo toda segunda-feira. É preciso refletir, pesquisar e dedicar um bom tempo para encontrar o tema, a forma de dizer e a síntese para encaixar na publicação. Todos nós queremos ler temas significativos, temas que podem nos ajudar a ver de forma mais clara a realidade que nos envolve. A questão não é apenas teórica, pois é preciso ver claro para agir corretamente.
Vejam, quando abrimos as redes digitais, nos deparamos com gente compartilhando conteúdos variados sobre temas diferentes ou sobre um mesmo tema duas, três e até mais vezes ao dia. Sem qualquer sombra de constrangimento e na certeza de que o mundo vai compartilhar o que foi postado, esses articulistas digitais, na maioria das vezes, não tiveram tempo suficiente para pesquisar o assunto; misturam fontes, são imprecisos e divulgam coisas enganosas, rasas e planas.
Se assim o fazem é porque as pessoas, em geral, parecem requerer. Dito de outra maneira, foi criado um mercado desejante de conteúdos rasos, facilmente deglutidos, sem consistência teórica e crítica. Daí em diante os likes recebidos nas postagens serão o “atestado de veracidade” dos conteúdos. O critério de verdade são os likes, a quantidade e não a qualidade é o que parece interessar.
“Eis o mal: o mundo está cheio de entretenimentos.” Vivemos uma espiritualidade consumista, uma febre de mudança perpétua, uma inflação das novidades. Afinal, já ouvimos dizer que “o princípio do gozo é a novidade”.
Então, para a massa, quanto mais novidade, melhor. Consumir o último produto torna-se uma obsessão — não importa se é roupa, filme, música, viagem, livro ou comida, contanto que seja novo.
Em última instância, acredito que estão nos viciando em novidades para nos vender produtos. Se foi lançado agora, deve ser o melhor, e “você não pode perder a oportunidade!”. Como o burro que caminha atrás da cenoura pendurada à sua frente, seguimos rolando a tela do celular no feed infinito de novidades.
Talvez por isso o casamento esteja em baixa. Quem suportará ouvir as palavras finais da cerimônia: “- Até que a morte os separe”? Insuportável! Vai aparecer o próximo produto”, e vou interromper o feed contínuo das novidades.
O homem virou um produto de si mesmo. Estamos sendo manipulados, e isso acontece num nível pré-consciente.
Comprovei isso quando uma amiga me disse que, às vezes, ela apenas pensou em algo, e aquilo apareceu no seu celular. Outras vezes, ela me disse, nem estava pensando objetivamente em algo, mas o seu smartphone já mostrou uma imagem, uma notícia, um produto que era exatamente o que ela ainda não sabia que queria – mas queria!
Magia? Não. Todos nós deixamos rastros na rede digital. Os algoritmos (fórmulas matemáticas) leem esses rastros, cruzam informações e manipulam a nossa vontade, nos conduzem sem que percebamos.
Volto ao começo do texto. Aceitei escrever um artigo por semana. É uma tarefa que exige esforço e atenção.
Desconfio daqueles que produzem “conteúdos” sobre todos os assuntos e por diversas vezes ao dia. Desconfio que eles estão atrás é de exposição. Estamos sendo arrastados para a ideia de que a exposição é mais importante do que a existência.
O nosso valor se deve à nossa existência e não à nossa exposição. Guarde o seguinte, você existe e isso é uma dádiva de tirar o fôlego! Como sugere o filósofo Byung-Chul Han, “a sociedade exposta é uma sociedade pornográfica: tudo está voltado para fora — desvelado, despido, desnudo, exposto. O excesso de exposição transforma tudo em mercadoria, à mercê da corrosão imediata, sem qualquer mistério”.
Encerro esta breve reflexão com o apontamento de que há em nós algo simbólico e misterioso — fomos feitos à imagem do Sagrado e nessa condição sugiro que guardemos o silêncio.





