Anápolis 119 anos: a cidade que nasceu por causa de uma promessa religiosa

Estudo publicado por pesquisadores da PUC Goiás mostra como a promessa feita por uma tropeira à padroeira Sant'Ana se tornou a principal narrativa sobre a origem do município

Lara Duarte -
Capela dedicada a Sant'Ana deu origem ao núcleo urbano que, anos depois, se tornaria o município de Anápolis. (Foto: Arquivo)
Capela dedicada a Sant’Ana deu origem ao núcleo urbano que, anos depois, se tornaria o município de Anápolis. (Foto: Arquivo)

Muito antes de se tornar um dos principais polos econômicos de Goiás, Anápolis teve sua origem associada a uma história de fé.

Diferentemente de boa parte dos municípios goianos, cuja formação esteve ligada ao ciclo do ouro, a tradição mais conhecida sobre o nascimento da cidade envolve uma promessa feita à padroeira Sant’Ana.

A narrativa é analisada no artigo “Sant’Ana e o mito fundador de Anápolis, Goiás”, publicado em 2022 na Revista Caminhos, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Goiás, pelos pesquisadores Haroldo Reimer, Maria Idelma Vieira D’Abadia e Mirelle Antônia Souza Freitas.

A mula que não queria seguir viagem

Segundo a tradição registrada por pesquisadores, a imagem de Sant'Ana está ligada à promessa feita por Dona Ana das Dores, narrativa que se tornou o principal mito fundador de Anápolis. (Foto: Arquivo)

Segundo a tradição registrada por pesquisadores, a imagem de Sant’Ana está ligada à promessa feita por Dona Ana das Dores, narrativa que se tornou o principal mito fundador de Anápolis. (Foto: Arquivo)

Segundo o estudo, a história gira em torno de Dona Ana das Dores, uma tropeira que viajava entre Jaraguá e Bonfim, atual Silvânia, acompanhada do filho, Gomes de Souza Ramos.

Durante uma parada na região conhecida como Antas, uma das mulas que transportava seus pertences desapareceu.

Quando o animal foi encontrado, próximo ao local onde hoje está a Catedral de Sant’Ana, teria se recusado a seguir viagem.

Entre a carga havia uma imagem da santa esculpida em madeira. Conforme descrevem os pesquisadores, Dona Ana interpretou o episódio como um sinal divino e prometeu doar a imagem à primeira capela construída naquele local caso conseguisse concluir a viagem.

A fé impulsionou o povoado

O artigo destaca que já existiam moradores na região desde o início do século XIX, fato registrado pelo naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire durante passagem pelo interior de Goiás.

No entanto, os autores defendem que foi a construção da primeira capela dedicada a Sant’Ana que contribuiu para consolidar o núcleo urbano.

As obras da igreja começaram em 1871. Dois anos depois, o povoado tornou-se Freguesia de Santana das Antas.

Em 1887 foi elevado à categoria de Vila e, em 31 de julho de 1907, passou a ser oficialmente denominado Anápolis.

Uma tradição preservada até hoje

Para os pesquisadores, a história de Dona Ana das Dores representa um mito fundador, conceito utilizado para explicar narrativas que ajudam a construir a identidade de uma comunidade.

Essa memória continua sendo renovada todos os anos durante a Festa de Sant’Ana, celebrada em julho.

O estudo aponta que a celebração evoluiu ao longo das décadas, passando das novenas realizadas em fazendas para uma das maiores manifestações religiosas e culturais do município, reunindo missas, quermesses, barraquinhas, leilões e milhares de fiéis.

Mais de um século depois da emancipação política, a devoção à padroeira permanece como um dos principais símbolos da história e da identidade cultural de Anápolis.

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Lara Duarte

Jornalista e pós-graduanda em Ciência Política, com atuação em jornal impresso, assessoria de comunicação e produção, reunindo experiência em diferentes frentes da comunicação.

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