Delegada aposentada presa por furto em Goiânia quebra o silêncio e fala em “ato de desespero”

Em entrevista, Adriana de Carvalho Fernandes fez denúncias de abandono e maus tratos na família

Davi Galvão Davi Galvão -
Delegada aposentada foi flagrada furtando itens de mercado interno em condomínio.
Delegada aposentada foi flagrada furtando itens de mercado interno em condomínio. (Foto: Reprodução)

Após virar manchete ao ser presa em flagrante por furtar produtos de um supermercado dentro do condomínio Alphaville Araguaia, em Goiânia, a delegada aposentada Adriana de Carvalho Fernandes, de 42 anos, falou publicamente pela primeira vez sobre o episódio.

Em entrevista ao Mais Goiás, ela revelou que o furto não se tratou de um simples delito, mas sim da gota d’água em uma série de infortúnios e injustiças que culminaram na falta de alimentos em casa.

Adriana foi detida no dia 29 de janeiro e liberada após o pagamento de fiança. Ela nega qualquer transtorno mental.

“Não foi um ato impensado, mas de grande desespero, frente à situação de fome que ocorria em minha casa”, declarou.

Na entrevista, a delegada aposentada sustenta que o caso se enquadra como furto famélico e diz que agiu amparada pelo estado de necessidade.

“Entendi que poderia ser presa em flagrante delito, mas preferi me expor a essa situação do que permanecer em casa, sem ajuda, incomunicável. Foi um pedido de socorro, acima de tudo”, disse.

Adriana também contestou nota divulgada pelo Sindicato dos Delegados de Polícia de Goiás (Sindepol), que afirmou que ela sofre de transtornos mentais agravados pela perda de uma filha, o que teria motivado sua aposentadoria no primeiro semestre. Segundo ela, o sindicato se manifestou sem autorização.

“Não foi autorizado por mim que o sindicato desse esclarecimentos a meu respeito”, afirmou.

Sobre a própria saúde mental, Adriana diz não fazer uso de medicamentos controlados e afirma estar em plenas condições psicológicas.

Relatos de perseguição

Na entrevista, Adriana afirma que a mãe, as duas irmãs mais velhas e o pai de seu filho estariam por trás dos problemas que enfrentou nos últimos anos.

Ela relata que, após a morte de uma filha em 2022, decidiu se afastar da família e passou a viver com o filho em hotéis de Goiânia, onde teria percebido situações que classifica como perseguição, inclusive envolvendo policiais civis.

Em um dos episódios, ela afirma que agentes teriam rondado o hotel disfarçados, o que, segundo ela, afetou tanto a rotina escolar do filho quanto seu trabalho. “A escola dele começou a ficar prejudicada, meus plantões também”, relatou.

Abordagens policiais e atendimento psiquiátrico

Adriana conta que, após pedir afastamento temporário do trabalho e solicitar atendimento no Núcleo de Atendimento à Saúde do Policial (Niab), se hospedou em outro hotel, onde afirma que a chave do quarto foi furtada.

O episódio teria culminado em uma discussão e, posteriormente, em uma abordagem policial.

Ela relata que, ao entrar em um hotel da região do Jardim Goiás com o filho, encontrou o saguão tomado por policiais.

Segundo Adriana, familiares acionaram o Samu, a Polícia Militar e a Polícia Civil, o que resultou no encaminhamento dela ao pronto-socorro psiquiátrico Wassily Chuc, onde permaneceu durante a madrugada.

“A troco de quê? Só porque eu descobri que eles não prestam?”, questionou.

Furto no condomínio

Adriana morava em uma casa alugada no Alphaville Araguaia desde meados de 2025. Em novembro, conforme relatou, teve o cadastro de moradora removido.

Ela acusou familiares de articularem exclusão, o que teria restringido sua entrada e saída do local, além de ter tido fornecimento de água e energia elétrica cortados, além do bloqueio da senha do cartão bancário. A situação se agravou após o filho, de 16 anos, decidir morar com o pai.

“Tudo foi feito para que eu entrasse em desespero completo devido à falta de comida em casa, para mim e cinco animais de estimação”, afirmou.

Sem água, energia elétrica e com recursos financeiros limitados, Adriana afirmou que passou a se alimentar de forma precária. “Eu e meus três gatos e dois cachorros ficamos no escuro, três dias sem água”, relatou.

Segundo ela, o furto foi uma estratégia consciente para sair da situação. “Eu precisava comer”, afirmou.

Audiência e mudança

A audiência de custódia ocorreu no dia 30 de janeiro, uma sexta-feira, às 14h. A Justiça arbitrou fiança, paga pelo atual marido da delegada aposentada, com quem ela retomou o relacionamento após o episódio.

Após deixar a prisão, Adriana passou a morar com o ex-companheiro e afirmou que não pretende retornar ao Alphaville Araguaia. A mudança, segundo ela, já está em andamento.

Em tempo

O flagrante do furto ocorreu no dia 29 de janeiro, quando as câmeras de segurança do mini-estabelecimento registraram parte da ação.

O vídeo mostra quando ela entra no local, pega alguns produtos e os guarda dentro de uma mala. Depois, sai sem pagar.

A proprietária do mercado informou às autoridades que a Adriana não possuía cadastro de acesso biométrico ao estabelecimento e estaria usando do acesso liberado por vizinhos para entrar no local e subtrair os produtos.

A primeira vez teria sido no dia 19 de janeiro, quando a suspeita teria levado duas cartelas de ovos com 12 unidades e dois pacotes de arroz 2kg. A conta somava R$ 57,76, mas ela deixou apenas R$ 35,90 no mercado.

Ela teria voltado a praticar o furto na última segunda-feira (26), antes de repetir nesta quinta-feira. A PM encontrou diversos itens guardados na mala de viagem que a ex-delegada levou para o estabelecimento.

Litros de leite, filtros de café, latas de milho e ervilha, óleo, azeite, queijos variados, água mineral e farinha de tapioca são apenas alguns dos produtos.

Confira a nota publicada pelo Sindepol

Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de Goiás vem a público manifestar profunda preocupação com a forma sensacionalista e estigmatizante pela qual foi divulgado o caso envolvendo uma delegada aposentada da Polícia Civil de Goiás.

A ampla exposição midiática do ocorrido, sem a devida contextualização dos fatos e sem respeito à condição de saúde da envolvida, viola princípios fundamentais de dignidade humana e contribui para a perpetuação do preconceito contra pessoas com transtornos mentais.

A delegada em questão, que não integra mais o quadro ativo da corporação, foi aposentada por incapacidade permanente em decorrência de doença de natureza mental, condição agravada após a perda trágica de uma filha adolescente.

Trata-se, portanto, de pessoa que necessita de acompanhamento médico e psicológico especializado, e não de exposição vexatória que apenas aprofunda seu sofrimento e o de sua família. A ausência de informações essenciais na cobertura jornalística demonstra descaso com a apuração responsável dos fatos e desrespeito à pessoa humana em situação de extrema vulnerabilidade.

Este Sindicato repudia veementemente a exploração midiática de tragédias pessoais e o tratamento discriminatório dispensado a profissionais de segurança pública que enfrentam adoecimento mental. Reafirmamos nosso compromisso com a defesa da dignidade de todos os delegados de polícia, ativos ou aposentados, e conclamamos os veículos de comunicação a exercerem o jornalismo com responsabilidade, ética e respeito aos direitos fundamentais. Manifestamos, ainda, solidariedade à família da delegada aposentada neste momento de extrema dificuldade.

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Davi Galvão

Davi Galvão

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás. Atua como repórter no Portal 6, com base em Anápolis, mas atento aos principais acontecimentos do cotidiano em todo o estado de Goiás. Produz reportagens que informam, orientam e traduzem os fatos que impactam diretamente a vida da população.

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