Saab e Embraer apresentam Gripen brasileiro, 1º caça supersônico feito no país
Desde o começo do ano, Gripen começou a ocupar sua função primária: defender o centro do poder a partir da base de Anápolis

IGOR GIELOW
GAVIÃO PEIXOTO, SP (FOLHAPRESS) – O primeiro caça supersônico produzido no Brasil, o modelo Saab Gripen E, foi apresentado oficialmente nesta quarta-feira (25), quase três anos após a inauguração de sua linha de produção conjunta entre a fabricante sueca e sua parceira local, a Embraer.
Com isso, o país se une a outros 14 que fabricam, com graus distintos de autonomia tecnológica, esses aparelhos que ultrapassam a velocidade do som – 1.225 km/h ao nível do mar.
O Gripen brasileiro foi exposto ao presidente Lula (PT) e outras autoridades na fábrica da Embraer de Gavião Peixoto (300 km a noroeste de São Paulo). Sua montagem foi completada após mais de um ano em horas de trabalho contínuas.
Dos 36 Gripen comprados pelo país em 2014, um ano após sua seleção, 15 deverão ser completados na unidade. Na FAB, o avião tem a designação F-39. “O dia de hoje significa bem mais do que a entrega de um avião”, afirmou o presidente da Saab, Micael Johansson.
O Brasil até fabrica partes da fuselagem, mas o principal ganho é o conhecimento: como na aviação comercial, o saber está na integração de sistemas e na absorção de tecnologias, o que envolveu 60 programas com várias empresas.
É um marco em um longo e dispendioso processo, que começou pelos 12 anos até a escolha do novo caça padrão da FAB, em 2013. Segundo dados do programa de acompanhamento de execução orçamentária do Senado, de 2014 para cá o Gripen consumiu R$ 16,75 bilhões em valores corrigidos.
Seu contrato inicial, em coroas suecas e também deflacionado, equivale hoje a R$ 29,5 bilhões. Ou seja, com 11 dos 36 aviões entregues até aqui, 57% da verba original já foi gasta.
Isso inclui os 12 aditivos já feitos ao contrato original, devido a aumento de gastos que ocorrem neste tipo de desenvolvimento: o Gripen atual é o da terceira geração da aeronave, essencialmente um produto novo. Segundo a FAB, até 2025 o valor extra daria para comprar mais seis aviões.
Uma análise da linha do tempo de pagamentos mostra uma alta taxa de execução, o que parece contrariar as queixas históricas dos militares de anemia orçamentária.
Isso pode ser explicado pelos aditivos, restando saber se haverá dinheiro para manter o programa com o cronograma atual – em 2025, foi pago R$ 1,37 bilhão do R$ 1,83 bilhão autorizado. O projeto já está atrasado em oito anos: pela previsão inicial, todos os aviões estariam voando em 2024, e a mais recente estimativa mira 2032.
Do ponto de vista tecnológico, é um grande avanço, comparável ao que a Embraer obteve nos anos 1980, quando participou do projeto italiano do avião de ataque AMX, e aprendeu a produzir aviões com motores a jato.
O conhecimento foi vital para o desenvolvimento do jato regional ERJ-145, que levantou a empresa do chão após a crise que levou à sua privatização em 1994.
Agora, os 350 engenheiros e técnicos brasileiros que foram treinados na Suécia, boa parte da empresa mas não só, estão capacitados à integração de tecnologias supersônicas, operação de softwares complexos e sistemas de guerra eletrônica.
A Embraer também foi central no desenho da versão de dois lugares, a F, que está em produção no país nórdico. Originalmente, ela deveria ser feita no Brasil, mas o cronograma apertado e custos obrigaram mudança de planos.
A transferência é ampla, mas não é total, como em qualquer negócio do tipo no mundo. Alguns componentes do avião precisam de licenças específicas de seus fabricantes que impedem a cópia, como no caso do motor da GE americana que equipa o caça.
Isso dito, Gripen é um modelo muito avançado do ponto de vista de fusão de dados, conversando com outros caças e aviões-radares como o Embraer R-99. A FAB tem acesso a seus sistemas, diferentemente do que ofereciam à época da compra seus rivais, o francês Dassault Rafale e o americano Boeing F/A-18.
Hoje, é o caça mais avançado na América Latina. O Brasil só opera outro supersônico, o vetusto americano F-5M que, apesar de modernizado, é um projeto que remete aos anos 1950 que foi comprado nos 1970.
Desde o começo do ano, após testes de lançamento de míssil e disparos de canhão, o Gripen começou a ocupar sua função primária: defender o centro do poder a partir da base de Anápolis (GO), a 150 km de Brasília.
O primeiro caça, que ainda está na campanha de testes, chegou ao país em 2020. O modelo feito no Brasil deve voar nas próximas semanas, com um atraso de alguns meses ante a programação inicial. Outros dois estão em produção.
Além da fabricação de mais sete aviões, Gavião Peixoto também mira o mercado externo. A vitória do Gripen numa concorrência na Colômbia quase certamente colocará sobre a fábrica a responsabilidade pelos 17 caças encomendados.
Um revés ocorreu na semana passada, quando o Peru abandonou a ideia inicial de comprar o modelo sueco e escolheu o F-16 americano. Mas a decisão foi do presidente interino José Balcázar, que deixa o cargo em julho e depois buscou recuar, então no mercado a expectativa é de que o jogo ainda esteja em aberto.
“Estamos prontos para produzir Gripen para outros países, inclusive na Colômbia”, disse o presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto. Comentando o caso andino, Johansson disse que “seremos um centro de exportação”.
Escala é essencial, embora a Saab diga que o programa do Gripen no Brasil vai manter os aviões no ar até 2060. Além disso, a FAB ainda negocia, embora para isso não haja dinheiro, a compra de um segundo lote para chegar a 50 aviões pelo menos.
Também está na mesa, mas com muita dificuldade devido à demanda da Ucrânia por caças na negociação que faz com Estocolmo no contexto da invasão russa, a possibilidade de trazer 12 aviões da geração anterior do Gripen, a C/D.
A Suécia tem 96 desses modelos. O problema da FAB é que estão caducos os AMX que opera em Santa Maria (RS), e os militares chegaram a cogitar comprar americanos F-16 de segunda mão para cumprir o papel, como forma de apressar as negociações.
Ao fim, o Gripen substituirá, além dos 23 AMX, os 40 F-5 remanescentes da frota. Com a construção nacional, o Brasil se une a EUA, Rússia, China, França, Suécia, Reino Unido, Alemanha, Espanha, Itália, Índia, Paquistão, Turquia, Japão e Coreia do Sul.
A listagem inclui países que dominam ciclos completos da fabricação e desenho, inclusive construção de motores, àqueles que montam aeronaves supersônicas sob licença.
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Colaborou Gustavo Patu
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O jornalista viajou a convite da Saab
Hoje o céu do Brasil é palco de um momento histórico. 🇧🇷✈️
Voei escoltado pelo primeiro Gripen produzido no Brasil. Um momento muito simbólico, que mostra um país que acredita em si mesmo, investe em tecnologia e reafirma sua soberania.
🎥 @ricardostuckert pic.twitter.com/nVlhRsVZYs
— Lula (@LulaOficial) March 25, 2026







