Desafiando a ciência: povo indígena da Amazônia envelhece mais devagar e mantém corpo e cérebro jovens na velhice

Pesquisas mostram que idosos tsimane chegam aos 80 anos com artérias e cérebro mais jovens do que populações urbanas

Gustavo de Souza Gustavo de Souza -
Desafiando a ciência: povo indígena da Amazônia envelhece mais devagar e mantém corpo e cérebro jovens na velhice
(Foto: Captura de Tela/YouTube)

Enquanto o envelhecimento costuma ser associado à perda de força, memória e autonomia, uma comunidade indígena da Amazônia segue na contramão dessa lógica.

Às margens do rio Maniqui, no norte da Bolívia, os tsimane surpreendem pesquisadores ao alcançar idades avançadas com níveis raros de saúde física e cognitiva.

Distantes do ritmo urbano e de hábitos industrializados, os idosos da etnia seguem ativos mesmo após os 80 anos.

Caminham longas distâncias, realizam tarefas diárias sem ajuda e mantêm funções cerebrais preservadas, despertando o interesse de cientistas do mundo todo há mais de duas décadas.

Artérias jovens e quase nenhum sinal de doença cardíaca

O acompanhamento contínuo da saúde dos tsimane revelou dados considerados excepcionais. Exames comparativos mostraram que as artérias dos idosos são biologicamente mais jovens do que as de pessoas da mesma idade em países desenvolvidos.

Em muitos casos, não há qualquer sinal de calcificação arterial, um dos principais indicadores de risco cardiovascular.

Cerca de 85% dos idosos avaliados apresentaram risco praticamente nulo de doenças cardíacas. Condições comuns em áreas urbanas, como obesidade, hipertensão e glicemia elevada, raramente aparecem entre os voluntários analisados, mesmo em faixas etárias avançadas.

Rotina ativa e alimentação ancestral moldam a longevidade

Parte da explicação está no cotidiano da comunidade. A alimentação é baseada majoritariamente em produtos naturais obtidos por meio da pesca, da caça e da agricultura de subsistência.

Mandioca, banana, milho, arroz, frutas e sementes compõem a base da dieta, com consumo mínimo de alimentos industrializados.

O movimento constante também é decisivo. Atividades como coleta, caça e deslocamentos a pé fazem parte da rotina desde a infância. Mesmo na velhice, muitos caminham distâncias que superam em muito a média diária de moradores de países europeus, o que resulta em menor perda muscular ao longo do tempo.

Cérebro preservado e os limites da vida na floresta

Os benefícios se estendem ao cérebro. Estudos apontam que o envelhecimento cerebral ocorre de forma significativamente mais lenta entre os tsimane, com menor incidência de doenças neurodegenerativas.

A preservação cognitiva reforça a ideia de que o estilo de vida tradicional exerce influência direta sobre a saúde mental.

Apesar disso, a vida na floresta não é isenta de desafios. A ausência de saneamento básico e o contato constante com parasitas e infecções fazem parte da realidade local.

Ainda assim, pesquisadores avaliam que essa exposição contínua pode ter contribuído para um sistema imunológico mais equilibrado.

Com a aproximação gradual das cidades, médicos já observam mudanças no perfil de saúde da comunidade, como aumento de peso e surgimento de doenças antes inexistentes.

Para os cientistas, o caso dos tsimane levanta uma reflexão incômoda: o avanço da modernidade pode estar afastando a sociedade urbana de um envelhecimento mais saudável.

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Gustavo de Souza

Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e estagiário do Portal 6.

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