Apenas o essencial

Acredito que precisamos reaprender a prática narrativa. A narrativa gera congruências, sentidos, significados, conhecimentos

Pedro Sahium -
Apenas o essencial
(Foto: Arquivo Pessoal)

Meu pai nasceu no início da Primeira Guerra Mundial (1914) e faleceu em 2010. Viveu todo o século XX. Formou-se em farmácia na Escola de Farmácia e Odontologia de Uberaba e instalou uma farmácia em Anápolis, em 1935. Depois de formado voltou à cidade no primeiro trem, o que inaugurou a estação ferroviária naquele ano. O Brasil era “República dos Estados Unidos do Brasil”, Goiás era com “y” e Anápolis com dois “enes”.

Viu surgir a penicilina, o automóvel, o telefone, a televisão, a água encanada, o vaso sanitário, a caneta esferográfica, o telex, o fax, o chuveiro de água quente. Mais tarde, viu os computadores, o telefone celular e a internet.

Ele adorava uma boa conversa, e seu repertório de histórias aumentava dia a dia. Certa manhã, após um bate-papo prolongado na cozinha de sua casa, um amigo disse: “- Pois é Dr. Jorge, bom mesmo era na nossa época, quando o senhor pôs a primeira farmácia.”. Meu pai, de pronto, se ajeitou na cadeira e respondeu: “- Bom nada. Bom é hoje: luz elétrica, carro, banho quentinho e antibiótico”.

Nós, que frequentávamos a sua casa diariamente, começamos a ouvir dele, já ao final da sua vida, um pequeno texto, decorado não sei de onde. Eram versos retirados de alguma revista que ele colecionava na sua biblioteca, cujo título, segundo dizia era “Apenas o essencial”. Se guardei bem, assim era o texto:

“Até meus 20 anos, eu tinha pouco mais que a roupa do corpo, meu orgulho e meu apetite. Dos 20 aos 50 anos, trazia para casa o que gostava e podia pagar, para mim e para a minha família. Dos 50 aos 60, deliciei-me com as conquistas realizadas e as que ainda mantinha no coração. Depois dos 70, descobri prazer em dar as coisas que possuía. Agora, aos 90 anos, acho que só vale a pena conservar três coisas: minha Bíblia, meus óculos e minha dentadura postiça”.

Meu pai faleceu aos 96 anos, e no leito de morte, confessou-me que achava necessário viver mais um pouco, porque queria fundar uma casa para abrigar crianças abandonadas e de rua. De onde vinha essa disposição, essa coragem, esse espírito de aventura? Talvez, fosse a sua têmpera, adquirida nas muitas lutas da vida.

As histórias de um velho não são apenas histórias de um velho. Somos todos feitos de histórias. Então, as histórias de um velho podem nos dar esperança, nos fazer autoconfiantes, nos dar coragem, renovar as nossas forças para as fontes da vida. Uma boa narrativa nos encanta.

Mas é preciso atenção. As histórias de ontem foram substituídas por fragmentos de vídeos, de textos, de falas sem fim que povoam o nosso entorno. Esse é o problema: esse atual conjunto informativo nos conta muito, mas não narra nada. Narrar é começar de um determinado ponto e ir desenrolando o novelo que compõe uma trama até chegar à sua conclusão. A narrativa tem começo, meio e fim. A narrativa exala perfume, emite sons, risos, choro, evoca expressões faciais mágicas porque gravadas nos nossos corações e caixas de recordações.

Mas hoje tudo está acelerado. Até as nossas mensagens são tocadas numa velocidade duas vezes superior àquela com que falamos. Não queremos “perder tempo”, o “outro fala muito devagar” e, afinal, “já sei mais ou menos o que ele (a) quer dizer”. O filósofo Byung-Chul Han acrescenta que “o pior da nossa época, que a coloca em crise, não é a aceleração, mas a dispersão e a dissociação temporal”. O tempo gira como numa biruta, sem rumo, mostrando muito, mostrando “tudo”, mas de forma pontual, atomizada. São inúmeros os vídeos de acidentes, de combates, de escorregões, de quedas etc. é uma soma de coisas iguais que vão ser passadas sem fim.

Diferente disso, meu pai ouvia e contava histórias. Acredito que precisamos reaprender a prática narrativa. A narrativa gera congruências, sentidos, significados, conhecimentos. Sem as narrativas nos enchemos de dados desconexos, sempre em busca da última notícia. Pobres interiormente.

Acrescento, por último, o fato de que “nessa era digital são altos os custos sociais e psicológicos da busca incessante por visibilidade e autenticidade” (HAN). Precisamos ser autênticos e visíveis para aqueles que, sentados na cozinha de nossas casas aprenderão o quente sabor do “olho no olho”, da rica risada de quem entendeu a história do começo ao fim.

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Pedro Sahium

Pedro Sahium é professor da UEG. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Goiás, também foi prefeito e vereador em Anápolis. Escreve todas as segundas-feiras.

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