Você precisa saber da história
Trazer o passado para o diálogo com Jesus é ter a terra do coração lavrada pelo conhecedor da vida. É promessa de novas e abundantes colheitas

Em tom de brincadeira, ouvi dizer: “Quem gosta de história é museu”. A brincadeira revela um tipo de visão bem limitada, como se o estudo do passado não tivesse nenhuma relação com o nosso presente, como se a história tivesse cheiro de naftalina. Quem brincou talvez estivesse expressando um senso comum que vê a história apenas como coisa do passado, coisa “ultrapassada”.
O filho do historiador Marc Bloch perguntou a ele: “- Papai, me explica: para que serve a história?”. Nasceu desta pergunta uma obra – Apologia da História – na qual o historiador mostrou como toda civilização ocidental se preocupa com o estudo dessa ciência.
Para ilustrar é só lembrar que nossos primeiros mestres, os gregos e latinos, eram povos historiógrafos, e o cristianismo, religião que ainda pauta o nosso cotidiano, é uma religião histórica – “tem como livros sagrados os livros de história, e suas liturgias comemoram, com episódios da vida terrestre de um Deus, os faustos da Igreja e dos santos”. Estamos mergulhados em história.
Gosto de um texto sagrado, para ilustrar o quanto e história importa, em vários níveis. Com essa narrativa, histórica, cultural, axiológica, ilustro o que Bloch apontou:
Jesus havia feito uma dura e cansativa viagem. Debaixo de um sol escaldante, de muita muito poeira e de estômago vazio, ele e os discípulos haviam deixado a Judeia e estavam em direção à Galileia. Na região da Samaria, perto da cidade de Sicar, cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço de Jacó – um lugar comunitário usado pelos habitantes daquela cidade para se abastecerem de água. Os discípulos foram até a cidade para comprar alimentos, e Jesus ficou só. Uma mulher da cidade veio buscar água e entrou em contato com Jesus. Seguiu-se um diálogo sobre alguns assuntos, até que Jesus disse à mulher:
“- Vá, chame o seu marido e volte aqui.”
“- Não tenho marido”, respondeu a mulher.
“- Você tem razão ao dizer que não tem marido, porque já teve cinco, e esse que agora tem não é seu marido. O que você disse é verdade”.
Existem muitas coisas que podem ser analisadas nessa história. O contexto geográfico da região, os hábitos do século I, as diferenças de gênero e de raça que eram impostas para judeus e samaritanos etc. Eu quero enfatizar uma outra questão. Jesus, longe de ser indiscreto ao tocar em assuntos de tão forte intimidade, deu-nos uma lição da importância da história, nesse caso em razão da mulher, da sua pessoa e de suas dores existenciais.
Acho que Jesus quis dizer para a mulher, o seguinte: “- Vá, chame o seu ‘passado’, e volte aqui”. Jesus entrou numa seara que precisa de cuidados: a seara do coração humano, das relações e das escolhas que foram feitas e se revelaram frustrantes, infrutíferas, danosas. Jesus, com cuidado e delicadeza, “toca na ferida”, o desafio dos relacionamentos estabelecidos por aquela mulher. Jesus pede para a mulher chamar o seu “passado”, ele sabia que era preciso curar a mulher de sua própria história.
Qual de nós não se envergonha de alguma atitude, de alguma reação, de alguma decisão tomada no passado, e que hoje, com certeza, o só pensar nela nos deixa envergonhados? Algumas coisas são mais sérias e outras mais amenas, mas ambas foram fruto de nossa falta de experiência, da nossa infantilidade, ou da própria insensatez, da falta de seriedade com que vivíamos.
Chamar o “passado”, quando pedido por Jesus, significa a necessidade de perdoarmos a nós mesmos, de deixar de ver com culpa o que ocorreu num outro tempo. Perdoar a si mesmo é um ato consciente, a demonstração de autonomia de um ser histórico que, nessa dimensão temporal, é capaz de ser renovado, de experimentar alívio, de ter remissão. É deixar de agir como carrasco de si mesmo. Trazer o passado para o diálogo com Jesus é ter a terra do coração lavrada pelo conhecedor da vida. É promessa de novas e abundantes colheitas.
Marc Bloch nos ensinou a considerar o passado num diálogo permanente com o presente, como dimensões de uma mesma realidade que se mescla, e pode até mesmo determinar o futuro. Afinal, o passado e o presente são construções e interpretações humanas sobre o que nós e todos os outros fazemos, sentimos e pensamos. Jesus, por outro lado, ensina o caminho do perdão, ensina a viver a vida como dádiva, e não como peso. E, depois dessa cura interna, nos possibilita desfrutar do alívio que permite erguer a cabeça e enxergar o futuro não como castigo, mas como promessa.
Siga o Portal 6 no Google News e fique por dentro de tudo!








