Pressões do tempo presente
Produzir e consumir mais, e num ritmo alucinante, é um modo de estar no mundo. Nada acaba, nada tem fim, não se desliga nunca

Há alguns dias atrás a temperatura caiu e o frio da noite aumentou. No dia seguinte eu falei para um amigo que, naquela noite, eu tive que ribuçá. Ele riu muito, me disse que fazia tempo que não ouvia o termo “ribuçá”. Nos despedimos rindo, e ele saiu repetindo baixinho, “ribuçá, ribuçá…”.
Para muitos, ribuçá é uma palavra inusual. Para nós, um sinal de reconhecimento. Lembramos da nossa infância e da convivência com os imigrantes mineiros – meus avós maternos migraram de São Sebastião do Paraíso (MG). Cresci ouvindo termos bem rurais e experimentando os sabores que minha avó e minha mãe preparavam na cozinha. Acho certo dizer que “todo o goiano é um mineiro cansado”, pois todos têm aqui um parente de Minas Gerais.
Ouvia dizer que uma pessoa chata era “um entojo”; menino esperto era “ladino”; “logo ali” era muito longe, e “arreda daí”, era uma ordem para sair do lugar. Da cozinha vinham os sonhos (recheados com goiabada “derretente”), os pães e biscoitos de queijo (que enchiam latas), as tortas de palmito, o lombo assado com tutu (esses apenas no Natal), e uma outra montanha de “trem gostoso”. A propósito: maçã só comia quem, por algum problema, estivesse internado no hospital.
Por muito tempo ouvi minha mãe dizer e aconselhar às mães da rua: “- Quando a febre é alta, não pode ribuçá”.
Naquela época, tínhamos também uma relação de proximidade com os velhos, com os vizinhos de muro e os que eram do “quarteirão” Convivência que estabelecia rituais de encontros, de festas sazonais que ritmavam comportamentos, encontros novos e despedidas. Nos solidarizávamos uns com os outros, e os laços comunitários pareciam mais fortes. Os ritos, diários ou não, cadenciados por símbolos partilhados, faziam do mundo um lugar mais seguro.
Vou usar o relato feito até aqui como pano de fundo para apontar patologias da sociedade atual. Mas, sem me postar nostalgicamente e nem negar os avanços de que desfrutamos atualmente.
Pressionados hoje por um sistema de consumo infinito, estamos sempre planejando uma compra. O comprar atual significa “querer algo com muita intensidade para, em seguida, jogar fora ou abandonar”. Os objetos de consumo de hoje sofrem de uma obsolescência programada e muito precoce. Então, produzir e consumir mais, e num ritmo alucinante, é um modo de estar no mundo. Os pobres, os excluídos, passaram a valer menos porque não consomem, ou consomem pouco, e “não produzem valor”.
Hoje, neste sistema social e econômico que insufla o egoísmo coletivo, o que importa é como nos sentimos em relação a nós mesmos, que se dane os outros (aqui eu exagerei só para ser pedagógico). No show do eu, por causa da ideologia neoliberal que prega a prosperidade individual como dogma, perdeu-se o senso comunitário. “Temos muita comunicação, mas não temos uma comunidade”. (HAN)
A sociedade atual está inflacionada de novidades, tomada por uma febre de mudança perpétua. Antes, na mesmice do que fazíamos – por exemplo, os mesmos encontros no final da tarde, em algum alpendre, ou, no muro da esquina -, o dia era concluído. A mesmice, com a sua repetição litúrgica – todas as tardes, no Natal, nos aniversários, nos casamentos ou velórios -, estabilizava a vida.
Hoje? Nada acaba, nada tem fim, não se desliga nunca. Não existe ritual de encerramento; tudo é deslizante, pulamos de um ponto temporal para outro. Vive-se desestabilizado. O sistema neoliberal, que inculca a ideia de sucesso individual e de culto idolátrico da produtividade, nos leva ao burnout – distúrbio emocional de exaustão extrema resultante de estresse crônico de trabalho – e também à exaustão pelo entretenimento, em especial pelo digital.
A mesmice dos rituais de encontros de antes nos fazia sentir seguros, conscientes, membros de uma comunidade. Até as palavras tinham cheiro, gosto, espaço temporal de longa duração. Nos dias atuais, diz o escritor Byung-Chul Han: “O tempo carece de uma estrutura sólida. [o tempo de hoje] é um fluxo inconsistente. Ele se desintegra na mera sucessão de um presente específico. Ele corre sem interrupção. Nada oferece a ele um ponto de apoio”.
Por fim, aprendi com o mestre Jung Mo Sung, “O sistema neoliberal fez do mercado um deus moderno e infalível; fez das desigualdades apenas o resultado natural do mérito, da eficiência e da competição; e fez da pobreza um problema individual”. Ferindo até a tradição ética, as religiões (com algumas exceções) viraram instituições de mercado.
Capturadas pelo sistema econômico, criaram uma teologia da prosperidade individual. Igrejas aderiram a novidade sem fim nas suas programações e sacrificaram o sagrado no altar de uma estética cambiável, para que os fiéis/clientes possam consumir emoções renovadas, mas que nunca estabilizam a vida, pois são apenas emoções.









