Mãe de criança internada relata ter perdido quase R$ 8 mil em golpe de falso médico em hospital de Anápolis

Vítima contou ao Portal 6 que golpista deu explicações técnicas, demonstrou preocupação com a paciente e insistiu na história

Natália Sezil -
Paciente denuncia que foi assediado por funcionário do Ânima enquanto estava anestesiado; profissional nega. golpe
Ânima Centro Hospitalar, em Anápolis. (Foto: Reprodução)

Apenas cinco dias depois da família de uma paciente com câncer relatar que quase perdeu R$ 6,8 mil no golpe da falsa equipe médica no Ânima Centro Hospitalar, em Anápolis, outro caso semelhante veio à tona. A mãe de uma criança que ficou internada no hospital perdeu cerca de R$ 8 mil com a mesma fraude.

Rayssa Patrícia contou ao Portal 6 que passou por isso em abril de 2025, quando a filha estava na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por conta de uma pneumonia bacteriana.

No segundo dia de internação, ela recebeu uma mensagem pelo WhatsApp, onde um homem se apresentava como “doutor Bruno Cesar”. Usava o número (62) 99616-8191, identificado como “Anima Centro Hospitalar” com uma foto da logo da instituição.

Suspeito usava foto do Ânima Centro Hospitalar, identificando-se como médico da instituição.

Suspeito usava foto do Ânima Centro Hospitalar, identificando-se como médico da instituição. (Foto: Acervo pessoal)

Ele dizia querer falar com a responsável pela criança, mencionando nome e sobrenome, e alegava que a menina precisava passar por uma microcirurgia no pulmão. “Tinha dado um coágulo e esse coágulo era sólido. Ela precisava fazer uma microcirurgia com urgência e o plano, no momento, não ia cobrir”, relembra a mãe.

Em uma ligação, o suspeito detalhou: “já não é líquido mais. O coágulo já se tornou sólido. Eu preciso de uma microcirurgia parcial agora, seguido do anestesista e das medicações”.

O suposto médico ainda apontava urgência no pedido: “não há tempo de fazermos pedido para o plano. Eu preciso desse valor para mantermos a cirurgia agora, e depois corremos atrás do plano. Pode ficar tranquilo, que esse reembolso é no máximo 10 dias”.

Rayssa relata que, até então, não tinha desconfiado de nada. Explica: “ele sabia de tudo, sabia que eu tinha plano de saúde, o meu contato de telefone, o problema que a menina tinha, sabia de tudo dela”.

Sem dinheiro para cobrir o pagamento, ela recorreu ao irmão, que se dispôs a ajudar. Foi ele quem entrou em contato com o golpista, depois, por ligação. A família acabou transferindo R$ 7.975,69.

Arquitetura do golpe

A reportagem teve acesso à ligação de voz que o suspeito fez com o irmão da vítima. Ao longo de quase cinco minutos, o golpista dá detalhes técnicos, explica como funcionaria o reembolso do valor por parte do plano de saúde e insiste que a preocupação é com a saúde da paciente.

“Foi identificado uma infecção pulmonar aguda seguida de um coágulo sanguíneo. E a nossa preocupação é devido a essa bactéria. Por se tratar de uma infecção aguda, ela é imprevista”, disse. E continuou: “nesse caso, automaticamente, eu já encaminhei três pedidos em caráter de urgência”.

“Mas por se tratar de exames de ponta, a Unimed está me pedindo 5 dias de prazo. Eu até discuti com a direção, viu? Isso é um absurdo. Todo pedido que foi feito foi obtido em caráter de urgência, né? Mas quando se trata de exames de ponta, não só o Unimed, sempre tem essa demora”, detalhou.

O suspeito comentou sobre a possibilidade de “a bactéria se unificar com o coágulo”, podendo “ocasionar uma infecção hemorrágica”, e mencionou que todo o processo posterior de reembolso seria feito pelo hospital.

Ao final da ligação, o falso médico ainda insistia na história: “eu vou te pedir cinco minutinhos que vou entrar em contato agora com o setor financeiro, porque não quero demora. Pode me aguardar que no máximo dois minutos”.

Início das desconfianças

Mesmo assim, o suspeito continuou pedindo dinheiro. “Sempre que o meu irmão mandava, não dava. Sempre pedia mais. Dizia que era para cirurgia, medicação, uma sala específica só para ela”.

Foi com isso que Rayssa resolveu procurar a empresa em que trabalha, de onde vem o plano de saúde, e ouviu que “aquilo ali não existe, de fazer uma cirurgia e depois me pagarem”.

Com a confirmação, a vítima resolveu avisar a Ouvidoria do Ânima e também procurar a delegacia. No hospital, diz que ainda procurou uma enfermeira, para perguntar se ela conhecia o médico “Bruno Cesar”. Escutou que “não, isso é golpe, ele está ligando para todo mundo da UTI”.

Mesmo com o caso formalmente registrado, a mãe compartilha que a situação não foi resolvida. “Na delegacia falaram que era só para aguardar. Fui em advogados, mas fizeram pouco caso. Acabou que não resolvi mais, e ficou por isso”.

Sem posicionamento

Diante das situações semelhantes, o Portal 6 procurou o Ânima Centro Hospitalar para questionar sobre o possível compartilhamento de dados sensíveis de pacientes.

Confira a seguir o posicionamento oficial:

“O hospital esclarece que os dados dos pacientes são acessados exclusivamente para fins assistenciais e administrativos, tanto por profissionais da própria instituição quanto, de forma legítima e controlada, por representantes de empresas de auditoria externa e operadoras de planos de saúde, sempre dentro dos limites legais e seguindo todas as normas previstas na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Reforça que não realiza entregas domiciliares de exames, tampouco efetua cobranças por telefone, mensagens ou visitas a domicílio. A instituição mantém rigorosas políticas internas de segurança da informação e conduz campanhas permanentes de conscientização junto aos pacientes e familiares sobre tentativas de golpe, que orientam e divulgam os canais oficiais de cobrança e atendimento. O hospital segue colaborando com as apurações, adotando internamente todas as medidas cabíveis e reforçando, continuamente, as ações de orientação para pacientes, familiares e colaboradores”. 

*Matéria atualizada às 08h02 do dia 19/06

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Natália Sezil

Chegou no Portal 6 como estagiária de jornalismo e foi promovida a repórter. Apaixonada por boas histórias, gosta de ouvir as pessoas, entender contextos e transformar relatos em narrativas que informam e conectam o público.

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