Por que mesmo com criminalidade em queda, Goiás ainda vê alta nos feminicídios?
Estado é o 9º no país com mais incidências do crime. Cenário inclui violência física, psicológica e patrimonial

O Governo de Goiás divulgou esta semana que houve queda nos principais índices de criminalidade. A lista considerou várias tipificações, como roubos, furtos, lesões, homicídios e estupros – mas deixou de fora os dados referentes aos feminicídios.
Enquanto outros crimes vinham sendo reduzidos, o assassinato de mulheres “cometido por razões da condição de sexo feminino”, ou seja, pelo simples fato de ser mulher, seguiu aumentando.
Números do Observatório da Secretaria de Estado da Segurança Pública de Goiás (SSP-GO), publicados a partir de 2018 com base em boletins de ocorrência, expõem que os casos de feminicídio apenas crescem no estado.
Na primeira medição, foram 36 registros. No ano seguinte, 40. Em 2020, subiram para 44 e, em 2021, para 54. Na sequência, foram computadas 55 ocorrências em 2022, e 56 em 2023 e em 2024.
Embora as estatísticas de 2025 não estejam atualizadas, os dados divulgados pela SSP-GO em coletiva de imprensa apontam 59 feminicídios.
A alta é nacional: o Ministério da Justiça e Segurança Pública mostra que houve 1.470 casos de janeiro a dezembro do ano passado, em todo o país. O total supera os 1.464 registros de 2024, e indica um cenário grave: quatro mulheres foram mortas, todos os dias, apenas por serem mulheres.
Casos ganharam repercussão
Vários casos podem ser mencionados. Em 14 de junho, Amábhia Chinágria Pereira da Silva, de 28 anos, foi morta a facadas pelo marido, em Niquelândia. Ela foi socorrida, mas morreu no Hospital Municipal. Deixou três filhos pequenos.
Em 05 de setembro, Tânia Lopes dos Santos, de 29 anos, foi morta a tiros pelo ex-companheiro, dentro de uma floricultura em Santa Terezinha de Goiás. Ela foi levada em estado gravíssimo ao hospital, mas não resistiu.
Em 11 de setembro, Elisângela Silva de Souza, de 26 anos, foi morta enquanto ia para o trabalho, em Rio Verde. O caso veio a tona junto a vários outros crimes cometidos pelo mesmo serial killer.
Números alarmantes
Goiás figura como o 9º estado com mais casos de feminicídio, em um número que pode estar subnotificado. A advogada Jéssica Nogueira apontou ao Portal 6: “ainda existe um problema com a classificação. Cerca de 15% dos homicídios de mulheres não foram computados como feminicídio no boletim de ocorrência”.
E completa: “as tentativas de feminicídio também cresceram 9% no país em 2025”. Entre os fatores que justificam o aumento na ocorrência do crime, Jéssica ressalta o ambiente em que ele é cometido (majoritariamente dentro de casa), as violências associadas e as medidas protetivas transgredidas.

Jéssica Nogueira, advogada goiana. (Foto: Acervo pessoal)
“Em 2024, foram 100 mil medidas protetivas descumpridas em todo o país. Isso acende um alerta para os tribunais, tanto pelas descumpridas quanto pelas concedidas, de que a mulher está sendo coibida pelo companheiro dentro da própria casa”.
A advogada detalha os tipos de violência que costumam ser observados em casos de feminicídios e tentativas. “A primeira é a patrimonial, o controle financeiro, mesmo quando a mulher está trabalhando. A psicológica, quando ele diz que ‘não vai encontrar coisa melhor’ ou até deprecia o corpo dela. E também a física”.
O que pode ajudar
Embora o cenário seja complexo e preocupante, Jéssica aponta que o sistema judiciário tem tomado medidas para tentar combater essa alta. Ela pontua a meta 8 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que foca no julgamento prioritário de processos relacionados ao feminicídio e à violência doméstica.
“Os advogados também têm algumas técnicas, como buscar o controle financeiro da mulher para combater a violência patrimonial. Em processos de divórcio, quando as vítimas têm medo do que pode acontecer com ela ou os filhos, é possível pedir medidas coercitivas junto à polícia”, afirma.
A especialista conta que, embora muitas medidas protetivas sejam descumpridas, elas ainda são uma alternativa eficaz no combate ao feminicídio. Destaca também que o apoio de pessoas fora do relacionamento é essencial.
“Quanto mais informações e mais apoio a vítima tiver, mais denúncias nós teremos”. Ressalta: “Quando a mulher sabe do próprio direito, sabe que pode ser protegida”.
Em caso de violência, denuncie
Mulheres que estejam sofrendo violência doméstica podem procurar a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), bem como solicitar medidas protetivas de urgência.
Diante de casos em que é necessário socorro imediato, é possível acionar a PM pelo 190 ou a Patrulha Maria da Penha, pelo (62) 99939-9581.
O Centro de Referência da Mulher Cora Coralina, na rua 74, esquina com a rua 59, no Centro de Goiânia, também fica disponível para atender mulheres em situação de violência. O local oferece assistência social, atendimento psicológico e jurídico.
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