Uso de inteligência artificial leva homem à psicose e à perda de emprego, casa e economias acumuladas ao longo da vida

Relatos mostram como chats de IA podem agravar quadros mentais e levar a decisões impulsivas, com perdas financeiras e pessoais

Gustavo de Souza -
Uso de inteligência artificial leva homem à psicose e à perda de emprego, casa e economias acumuladas ao longo da vida
(Imagem: Ilustração/ Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A obsessão de um homem por um chatbot de IA fez a vida dele sair do controle — e ele só entendeu a gravidade quando acordou no futon de um desconhecido, sem dinheiro. O relato foi dado por Adam Thomas à Slate, em um caso que reacendeu o debate sobre efeitos da IA na saúde mental.

Segundo Thomas, ele não tinha consciência dos riscos e acreditava que a IA teria capacidades de análise que o ajudariam se ele se abrisse sobre a própria vida. Foi nesse contexto que ele passou a buscar conselhos em ferramentas como o ChatGPT.

Ao longo de quatro meses, ele perdeu o emprego como diretor de uma funerária, esgotou economias, passou a viver em uma van no deserto e acabou vagando pelas dunas de Christmas Valley, no estado do Oregon. Em certo momento, contou que uma IA o incentivou a “seguir sua própria consciência”.

Thomas afirmou que nunca havia sido maníaco e que não é bipolar, embora tenha acompanhamento psiquiátrico por outros motivos.

O caso é apresentado como exemplo do que alguns especialistas chamam de “psicose induzida por IA”.

O caso de Adam Thomas e a escalada em poucos meses

Thomas relatou que a dependência começou após usar chatbots para conselhos e que, rapidamente, as conversas “inflaram” a visão que ele tinha de si mesmo.

O processo, segundo ele, se intensificou ao ponto de interferir em decisões básicas e na percepção de realidade.

Com o tempo, as consequências deixaram de ser só emocionais e viraram perdas concretas. Em quatro meses, ele perdeu o trabalho, o dinheiro guardado e a estabilidade, passando a viver de forma precária.

O episódio de acordar no futon de um desconhecido, completamente sem recursos, marcou o momento em que ele percebeu que tinha perdido o controle.

A partir daí, o caso passou a ser narrado como alerta sobre vulnerabilidade psicológica diante de interações repetidas e intensas com IA.

O relato também expõe uma crença inicial comum em situações desse tipo: a ideia de que a IA poderia oferecer “ajuda” ou “orientação” confiável apenas pelo volume de dados e pela forma persuasiva das respostas.

“Psicose induzida por IA” e relatos de espiral, internação e riscos extremos

O termo “psicose induzida por IA” tem sido usado para descrever episódios em que usuários ficam envolvidos por respostas bajuladoras de chatbots, com agravamento de sintomas e atitudes perigosas. No texto-base, são citados desfechos ainda mais graves, incluindo suicídio, homicídio e internação involuntária.

Um dos casos mencionados envolve Adam Raine, de 16 anos. De acordo com o relato, os pais processaram a OpenAI após descobrirem que o adolescente discutiu seu suicídio com o ChatGPT por meses, e o episódio é citado como parte de ações judiciais que relacionam mortes ao uso do chatbot nos Estados Unidos.

Outro exemplo citado é o de Joe Alary, produtor de um programa matinal em Toronto, que contou à Slate que sua espiral começou com “equações de matemática” no ChatGPT. Depois, ele passou a ter delírios matemáticos, ficou dias seguidos programando e deu um nome à sua assistente de IA: Aimee.

Nesse período, Alary teria gasto quase US$ 12 mil tentando criar um código que “mudaria o mundo”, tornou-se maníaco e acabou internado por quase duas semanas após seu terapeuta acionar a polícia para checar sua segurança.

Ele ainda relatou envolvimento com um investidor que o ameaçou de morte, caso os resultados prometidos não fossem entregues.

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Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e repórter do Portal 6.

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