Após negociar adaptação médica com a empresa, funcionária é demitida semanas depois e caso vai à Justiça

Ação reacende debate sobre jornadas exaustivas em Wall Street e os limites da acomodação médica no setor financeiro

Gustavo de Souza -
Após negociar adaptação médica com a empresa, funcionária é demitida semanas depois e caso vai à Justiça
(Foto: Ilustração/Tötös Ádám/Unsplash)

Uma ex-analista da boutique de investimentos Centerview Partners levou à Justiça dos Estados Unidos a alegação de que foi demitida semanas após negociar uma adaptação médica para garantir nove horas de sono por noite. O caso, revelado pelo Financial Times, reacende o debate sobre os limites da cultura de trabalho em Wall Street.

Kathryn Shiber ingressou na empresa em 2020, aos 21 anos, como analista júnior. Segundo a ação, ela informou sofrer de transtorno de humor e ansiedade, condições que exigiam rotina regular de descanso.

O acordo e o desligamento

De acordo com os documentos citados pela imprensa internacional, a Centerview estruturou um arranjo que reservava o período entre meia-noite e 9h exclusivamente para descanso. Em contrapartida, a analista permaneceria disponível nos demais horários, inclusive aos fins de semana.

Menos de três semanas após a implementação da medida, Shiber foi desligada. A ação sustenta que executivos questionaram a compatibilidade entre a exigência médica e a rotina típica de um banco de investimento, marcada por horários imprevisíveis e longas jornadas.

A empresa argumenta que a capacidade de trabalhar em horários indeterminados é função essencial do cargo. Também sustenta que não haveria acomodação razoável compatível com a necessidade de descanso regular.

Projeto estratégico e advertência

À época da demissão, Shiber participava de um projeto relevante para o banco. Segundo os registros do processo, ela teria sido advertida após se desconectar depois da meia-noite sem avisar colegas seniores.

Em seguida, comunicou formalmente ao departamento de recursos humanos sua necessidade médica. O banco passou a dispensá-la do trabalho noturno, mas avaliou posteriormente que a limitação poderia impactar o desempenho individual e a dinâmica da equipe.

Pedido de indenização milionário

Na ação, Shiber afirma que o desligamento comprometeu sua trajetória no mercado financeiro. Ela busca salários projetados para a próxima década, valores retroativos e compensação por danos emocionais, o que pode alcançar milhões de dólares.

Desde a demissão, declarou ter recebido cerca de US$ 582 mil em rendimentos, incluindo período de atuação no grupo financeiro do Google.

Debate sobre jornadas exaustivas

O caso ocorre em meio a críticas recorrentes às condições de trabalho em Wall Street. Em 2021, analistas do Goldman Sachs divulgaram apresentação interna relatando jornadas exaustivas durante a pandemia, o que levou algumas instituições a anunciar ajustes em políticas de carga horária.

Fundada em 2006 por Blair Effron e Robert Pruzan, a Centerview é uma das principais boutiques de assessoria em fusões e aquisições dos Estados Unidos, com receita anual superior a US$ 2 bilhões, segundo o Financial Times.

O desfecho do processo pode ajudar a definir até que ponto a disponibilidade irrestrita é considerada requisito essencial no setor financeiro.

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Gustavo de Souza

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e repórter do Portal 6.

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