Estamos próximos do fim do mundo?
Estados Unidos podem provocar uma hecatombe nuclear, e tudo “em nome de Jesus”. Mas Jesus não é o Senhor da Guerra

O tema vem de longe. De tempos em tempos algum setor da sociedade anuncia, debate e se prepara para o “Fim do Mundo”. Sou cético quanto a narrativas sobre o futuro. O assunto é de escatologia, da área da teologia. Eu me dedico ao estudo da história. Nos meus estudos o Fim do Mundo esteve próximo na Crise dos Mísseis em Cuba (1962). Em plena Guerra Fria (1947-91), a União Soviética instalou misseis com ogivas nuclear em Cuba e isso quase levou à 3ª Guerra Mundial – e ao fim do Mundo. Mas, a crise foi resolvida com a retirada dos mísseis soviéticos de Cuba e, em contrapartida, dos mísseis norte-americanos da Turquia e da Itália. O mundo ficou livre do fim.
Mas chegamos em 2026, e eu me rendi ao tema. Agora o assunto me interessa. Em 2026, o fim do mundo se aproximou. E o assunto me veio, inicialmente, sob a forma de um forte sentimento de medo e mal estar quando eu tomei conhecimento da existência de um “gabinete da Fé”, na Casa Branca. Criado em 2025, no governo Trump, tal “gabinete da Fé” tem à frente a apresentadora de TV e “pastora” evangélica, Paula White-Cain – “uma pastora que lidera nos Estados Unidos a cruzada ultraconservadora contra ateus, globalistas e marxistas”. Misturam, perigosamente, política com religião e se esquecem que o importante no cristianismo é como você trata as pessoas e não, exclusivamente, no que você acredita.
No último dia 05 de março, com a escalada da guerra no Irã, pastores evangélicos do “gabinete da fé” foram até o Salão Oval orar pelo presidente dos Estados Unidos. Pediam “graça divina e proteção para as tropas norte-americanas e para todos os militares que servem nas Forças Armadas dos Estados Unidos”. Um dos pastores também orou declarando que a nação norte americana está voltando a ser de Deus, e que por isso, “se tornou um país de liberdade e justiça para todos”, e agora, disse ele Deus deve abençoar o seu presidente.
Pedir orientação a Deus não me parece ser uma má ideia. Mas de que Deus estavam falando? Falavam de um Deus que escolhera uma nação para servir de modelo e árbitro do mundo, e a história mostra que o uso de argumentos religiosos para justificar guerras costuma deixar marcas irreversíveis. Mais grave, quando uma guerra passa a ser entendida como “missão divina”, o espaço para o diálogo quase desaparece.
Há também outra questão incômoda: o que aconteceu com o princípio da separação entre Igreja e Estado? Seriam as guerras de hoje guerras de deuses? Essa “aristocracia dos eleitos de Deus” é exemplo de liberdade e justiça? Voltar a ser uma nação de Deus lhes dará direito de praticar qualquer ato contra quem eles bem entenderem? Pode desumanizar imigrantes, comunistas, feministas, islâmicos, ateus ou qualquer outro grupo em nome de uma missão sagrada, de uma missão dada por Deus?
Esse gabinete da fé parece ver o futuro na forma de ameaça ateia, islãmica e comunista. Querem provocar o Armagedon, um tipo de batalha final do bem contra o mal, que representaria a volta de Cristo, isso de acordo com a interpretação que fazem de textos da Bíblia. Assim, trabalha-se para um tempo que seria o tempo em que “tudo se acaba”.
Daí o meu receio de fim do mundo. Eles podem provocar uma hecatombe nuclear, e tudo “em nome de Jesus”. Mas Jesus não é o Senhor da Guerra. Nenhuma nação é a medida de todas as outras. Todos os seres humanos foram criados à imagem de Deus.
Jesus não mandou amar o país, a igreja, a doutrina ou o credo acima de tudo. Mandou amar o próximo – aquele que sofre, que tem fome e sede, que está excluído, sem-terra, sem nome, expatriado. Esse amor de Jesus não se vincula a gênero, classe, raça ou status de qualquer natureza. É simplesmente o amor que reconhece no outro a mesma dignidade humana.
Talvez seja justamente esse amor — e não as guerras travadas em nome de Deus — que ainda possa nos afastar do verdadeiro fim do mundo.








