Vítimas da dentista Valéria Ribeiro dão relatos chocantes sobre procedimentos em que sofreram sequelas permanentes
Reportagem teve acesso a relatos de pacientes que, em busca de autoestima, acabaram vivendo pesadelos marcados por deformidades físicas

A prisão da dentista Valéria Martins Ribeiro, ocorrida na última quinta-feira (28) em Goiânia, abriu as portas para um cenário de horror que ultrapassa as fronteiras dos consultórios odontológicos.
O Portal 6 teve acesso exclusivo a relatos de pacientes que, em busca de autoestima, acabaram vivendo pesadelos marcados por deformidades físicas, negligência e até mesmo o que descrevem como uma tentativa de ocultação de socorro.
A profissional, que se apresentava nas redes sociais como a “nº 1 em lipo de papada” para os mais de 74 mil seguidores, é agora o centro de uma investigação da Polícia Civil (PC) que apura lesões corporais gravíssimas e exercício ilegal da medicina.
Quatro dias na casa da dentista: “me levou para não perder o CRO”
O relato mais chocante vem de uma paciente de Morrinhos, que fez um procedimento no dia 24 de abril de 2024.
O que deveria ser uma simples retirada de pele na papada transformou-se em uma intervenção invasiva que a deixou com cortes extensos na frente e atrás das orelhas.
Segundo a vítima, que não quis se identificar, Valéria teria notado a gravidade das complicações pós-operatórias, momento em que passou a adotar uma conduta, no mínimo, atípica.
“Quando ela viu que na minha cirurgia ela fez tudo errado, ela me levou para a casa dela. Eu fiquei na casa dela quatro dias e três noites”, revela a vítima.
Segundo ela, a dentista teria evitado levá-la ao hospital para não gerar registros que pudessem comprometer o registro profissional junto ao Conselho Regional de Odontologia (CRO).
“Eu fiquei aguentando as dores tudo em casa. Ela conseguia fazer uma lavagem cerebral muito forte na gente. Eu tinha medo de ir no hospital e ter que contar que fiz a cirurgia com uma dentista e expô-la”, desabafa.
A paciente, que hoje lida com lóbulos de orelha colados e deformações no pescoço, prepara-se para uma cirurgia reparadora de alto custo. “Eu chorava demais no dia, fiz até oração com meu esposo porque estava desesperada de ser operada em uma salinha comum de dentista”, relatou.
“Me descredibilizou como profissional”: estratégia de ataque às pacientes
Uma segunda paciente detalhou ao Portal 6 o que descreveu como um padrão de comportamento de Valéria Ribeiro: a revitimização.
Após uma lipo de papada que resultou em assimetria severa, com um lado do rosto visivelmente mais aspirado que o outro, a vítima buscou explicações, mas recebeu ataques.
“Ela falou que não tinha o que arrumar e que o resultado ruim era por conta de um trabalho mal feito meu [no pós-operatório]. Ela me descredibilizou como profissional, pois tenho curso técnico de massagem e drenagem”, relata.
Segundo a vítima, a dentista utilizava uma fisioterapeuta da própria clínica para tentar vender pacotes de recuperação quando as pacientes reclamavam dos resultados.
Além do dano físico, a paciente destaca o “estrago mental” e a coação jurídica. “Se você der uma nota baixa, ela manda os advogados atrás de você para tirar a nota. Eles usam a autoridade para oprimir quem reclama”, disse.
Hoje, a paciente lida com uma papada maior do que antes do procedimento e com divergências estéticas no rosto.
“Cortou minhas orelhas”: lifting facial não autorizado
Outra vítima, vinda de Porto Alegre (RS) especificamente para operar com a dentista em Goiânia, relata que o acordo inicial era para uma ‘platismoplastia’. No entanto, ao acordar, percebeu que havia sido submetida a um lifting facial completo sem qualquer autorização prévia.
“Ela cortou minhas orelhas. Era para ser um procedimento e ela fez outro”, afirma a paciente, que já passou por três cirurgias reparadoras para tentar minimizar os danos. Para ela, a notícia da prisão da dentista tardou a chegar.
“Demorou muito para ela ser presa. Ela tem muitas vítimas, ela deforma as pessoas”. A gaúcha agora move um processo na justiça civil e já passou por diversas perícias médicas para comprovar o estrago causado pela profissional.
Posicionamento
A defesa de Valéria Ribeiro afirmou em nota que ainda não teve acesso à integralidade dos documentos da operação e que se manifestará oportunamente.
O CRO-GO informou que acompanha o caso e que procedimentos cirúrgicos na face só podem ser realizados por dentistas com especialização comprovada em Cirurgia Estética Orofacial, o que a investigação aponta que a profissional não possuía.
Confira o posicionamento da defesa de Valéria Ribeiro
A defesa da cirurgiã-dentista Valéria Ribeiro vem a público esclarecer que, até o presente momento, não teve acesso à integralidade dos documentos que embasaram a operação policial deflagrada nesta quinta-feira (28) pela Polícia Civil de Goiás.
A ausência de acesso integral aos autos impossibilita, por ora, uma resposta técnica e jurídica completa aos fatos noticiados.
Tão logo tenha acesso irrestrito à documentação, a defesa se manifestará de forma detalhada e fundamentada.
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