‘Campo de concentração’, diz Vanderic ao descrever clínica clandestina de Anápolis que abrigava 50 pessoas
Segundo delegado, pessoas viviam em cárcere privado, sofrendo maus-tratos e até mesmo torturas
A equipe da Delegacia do Idoso em Anápolis (DEAI) fez uma descoberta chocante na noite desta terça-feira (29), na zona rural de Anápolis – acessada via BR-414. A operação desarticulou uma clínica clandestina, na qual cerca de 50 pessoas pagavam por tratamentos, mas eram vítimas de diversas irregularidades, a ponto do local ser comparado a um campo de concentração pelo delegado responsável pela investigação, Manoel Vanderic.
Ao Portal 6, ele relatou ter percebido a revolta generalizada da população com as cenas descobertas. Eram adolescentes que viviam junto com idosos, dependentes químicos e até um autista, todos amontoados em apenas um quarto, vivendo sobre regras que caracterizam cárcere privado e sofrendo até torturas.
“Me lembrou do abrigo colônia em Barbacena, que registrou casos que promoveram a reforma manicomial no Brasil. Retiramos da convivência quem não é aceito e simplesmente jogamos fora. É o caso do autista encontrado lá, que foi expulso e trancado como um bicho, simplesmente porque ninguém queria”, pontuou.
“Nenhum crime tão grave acontece por tanto tempo sem a negligência da sociedade e do estado. São crianças, homens e idosos com doença mental, autismo, demência ou dependência química que foram afastados ilegalmente da sociedade porque não sabemos lidar com essas realidades difíceis, mas que precisam ser enfrentadas pela família e principalmente pelo poder público”, completou o delegado.
Dentre os internos, um apresentava sérias queimaduras tidas enquanto cozinhava – tarefa que era desempenhada pelos próprios “pacientes”. Ele, inclusive, permaneceu com a ferida exposta sem receber tratamentos.
A situação só foi descoberta após um idoso ter comparecido ao Hospital Estadual de Anápolis Dr. Henrique Santillo (HEANA) com diversos ferimentos. A partir daí, a polícia rastreou a origem dele e descobriu a dimensão do problema.
De acordo com a Polícia Civil (PC), as pessoas foram levadas ao local de forma ilegal e involuntária e pagavam mais de um salário pelo que deveriam ser tratamentos psiquiátricos.
O resgate contou com o apoio da Vigilância Sanitária, de equipes da Prefeitura, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e da Assistência Social.
As vítimas foram, então, transferidas ao Ginásio Carlos de Pina, na zona Sul de Anápolis, onde estão alojadas. Alguns apresentavam piores condições de saúde e tiveram que ser internados.
Seis pessoas foram presas em flagrante – quatro funcionários e o casal de proprietários. Um deles, inclusive, chegou a fugir do local quando a PC chegou. Eles foram encaminhados à Cadeia Pública de Anápolis e devem responder pelos crimes de tortura e cárcere privado qualificados.
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