Risco invisível: primeiro MotoGP em Goiânia aconteceu durante o acidente radiológico com Césio-137

Sem que ninguém soubesse, maior acidente do mundo fora de usinas nucleares começou apenas duas semanas antes de Goiás sediar a etapa do Brasil

Natália Sezil -
MotoGP e acidente com Césio-137 aconteceram durante a mesma época em Goiânia.
MotoGP e acidente com Césio-137 aconteceram durante a mesma época em Goiânia. (Foto: Reprodução/Honda e Divulgação/CNEN)

Entre entusiasmo e receio, dois assuntos opostos fizeram com que Goiânia se tornasse uma das cidades mais comentadas do Brasil nas últimas semanas. Em polos opostos do pensamento popular, o retorno do MotoGP e a lembrança do Césio-137 trabalharam juntos para colocar a capital na “boca do povo”.

O primeiro, porque voltou a ser realizado no Autódromo Internacional Ayrton Senna 39 anos depois de rodar naquela pista pela primeira vez. O segundo, porque inspirou a série “Emergência Radioativa”, que passou a ser a produção de língua não inglesa mais assistida nos rankings mundiais da Netflix.

No meio de tantos assuntos, pode ser fácil se perder na linha do tempo – mas a verdade é que os dois acontecimentos históricos estão mais próximos do que o ideal. Goiânia descobriu que havia contaminação se espalhando apenas um dia depois da competição atrair vários visitantes.

O GP do Brasil, que voltou a ser realizado em terras goianas entre os dias 20 e 22 de março de 2026, aconteceu pela primeira vez em 27 de setembro de 1987. A capital de Henrique Santillo foi a escolhida para ser palco da estreia.

Segundo relatos da época, as arquibancadas estavam abarrotadas de espectadores. A dimensão do torneio atraiu pessoas de vários lugares, fazendo com que elas se deslocassem de avião, carro, ônibus ou até de bicicleta.

O campeonato que deu o título da categoria 500cc ao australiano Wayne Gardner, e o da 250cc ao francês Dominique Sarron, terminou no domingo.

Wayne Gardner foi campeão do GP do Brasil. (Foto: Reprodução/Honda)

Na segunda-feira, 28 de setembro, a mesma Goiânia que havia presenciado todo aquele entusiasmo internacional se via diante de uma missão inimaginável: conter o espalhamento de um isótopo radioativo, o mesmo encontrado no desastre nuclear de Chernobyl apenas 17 meses antes.

Comparação com Chernobyl

Registrado em 26 de abril de 1986, o acidente de Chernobyl, na Ucrânia, aconteceu pela explosão de um reator nuclear, que liberou grandes quantidades de radiação. Dois trabalhadores morreram pelo impacto inicial, e 29 bombeiros e trabalhadores da limpeza de emergência faleceram nos três primeiros meses, vítimas da Síndrome Aguda da Radiação e de parada cardíaca.

Toda uma cidade precisou ser evacuada, mobilizando quase 50 mil habitantes. Outras 67 mil pessoas precisaram sair de casa nos meses seguintes, e a estimativa total chega a 200 mil.

O Césio-137 continua presente na região até hoje. Foi o elemento mais perigoso liberado, porque tem meia-vida de 30 anos – ou seja, demora 30 anos para reduzir sua carga radioativa pela metade, ainda assim sem se “desativar”.

Apenas ouvir falar disso tão perto de casa, portanto, já deve ter assustado vários moradores. Não fosse pela demora para descobrir que se tratava disso, é possível que o MotoGP sequer pudesse ter sido realizado. Mas o calendário contribuiu.

Cronologia do acidente

A história do Césio-137 em Goiânia começou em 13 de setembro de 1987, quando Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves retiraram um aparelho abandonado das ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR, mas que não corresponde à atual sigla).

Eles levaram uma peça da máquina para a casa de Roberto, onde removeram o lacre da cápsula que continha o pó que brilhava azul no escuro. Em 18 de setembro, a peça foi vendida para Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho.

Saiba o que aconteceu com Devair, dono de ferro-velho após a tragédia do Césio-137 em Goiânia

Dono do ferro-velho onde cápsula com Césio 137 foi aberta, Devair Alves Ferreira. (Foto: Reprodução)

A partir daí, passaram a ser distribuídos fragmentos da substância. Sem saber dos perigos, amigos e familiares manipulavam o pó brilhante e o compartilhavam.

Em 28 de setembro, logo depois do encerramento do MotoGP, a esposa de Devair, Maria Gabriela Ferreira, levou a cápsula em uma sacola de plástico até a Vigilância Sanitária. O trajeto foi feito de ônibus, espalhando a radiação pela cidade até chegar ao destino.

O acidente foi oficialmente reconhecido no dia seguinte, 29 de setembro, quando o físico Walter Mendes confirmou os altos níveis de radiação e começou a isolar as áreas afetadas.

Césio-137: acidente radiológico atingiu também Anápolis e deixou cinco áreas contaminadas

(Foto: Acervo/Governo de Goiás).

Quatro pessoas morreram nas semanas seguintes. Leide das Neves, que tinha apenas seis anos, se tornou símbolo da tragédia. Foi a mais afetada por ter brincado com o pó e ingerido partículas. Faleceu cerca de um mês depois, em 23 de outubro.

No mesmo dia, morreu Maria Gabriela. Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza, funcionários do ferro-velho, faleceram em 27 e 28 de outubro, respectivamente.

Outros envolvidos morreram anos depois, também por consequências da radiação. Mais de 112.800 pessoas foram avaliadas no Estádio Olímpico, 249 apresentaram algum grau de contaminação e 129 precisaram de acompanhamento médico permanente.

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Natália Sezil

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás, é estagiária do Portal 6 e atua na cobertura do cotidiano. Apaixonada por boas histórias, gosta de ouvir as pessoas, entender contextos e transformar relatos em narrativas que informam e conectam o público.

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