‘Me sinto com 80 anos ao contrário; oito, talvez’, diz Alceu Valença

Cantor abre sua nova década de vida com a turnê 80 Girassóis, que chega a São Paulo no dia 28 de março

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Alceu Valença
Alceu Valença abre sua nova década de vida com a turnê 80 Girassóis (Foto: Rafael Strabelli/Divulgação)

ANAHI MARTINHO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Prestes a completar 80 anos, Alceu Valença abre sua nova década de vida com a turnê 80 Girassóis, que chega a São Paulo no dia 28 de março.

Em entrevista à reportagem, ele conta que o show é uma “viagem cronológica” em sua obra. “Uma música interliga na outra, como se fosse um filme. São músicas de várias épocas, das décadas de 1970, 1980”, diz. O nome da turnê faz referência ao ciclo de vida do girassol, que dura um ano.

“É um repertório muito eclético, que vai passando por diversas fases da minha carreira e da minha discografia”, adianta.

O mais jovem octogenário da música brasileira, que completa a marca no dia 1º de julho, se sente com mais vitalidade que nunca. “Me sinto com oitenta ao contrário, oito anos talvez”, brinca Alceu, que acaba de fazer mais um Carnaval no Recife e em São Paulo. Há onze anos, ele desfila com seu bloco Bicho Maluco Beleza na capital paulista.

Dono de uma intelectualidade que considerava ser mal compreendida pelo público em sua juventude, o artista de São Bento do Una, no interior pernambucano, hoje vê seus sucessos de quatro, cinco décadas atrás, cada dia mais cultuados pelas novas gerações.

“As pessoas da minha geração não entraram muito profundamente na obra da gente naquela época”, relembra.

“Quando minha geração veio para cá [Sudeste], não existia um conhecimento grande sobre outras culturas. A cultura era a carioca. Eu mesmo faço samba também. Mas quando nós chegamos aqui, ninguém nos entendia muito bem. Não acreditavam que uma pessoa como eu era formada em direito, que lia Rubem Braga, que lia Drummond, que tinha um conhecimento da cultura”, recorda.

Por volta dos anos 2000, 2010, Alceu voltou à moda entre os jovens. E não saiu mais. Em 2015 surgiu seu bloco de Carnaval em São Paulo, hoje um dos mais bombados da festa paulistana. “Começou num lugar pequenininho e agora está no [parque] Ibirapuera”, conta.

BOB DYLAN BRASILEIRO

Formado em direito, Alceu chegou a trabalhar como jornalista e como advogado. Desistiu da segunda profissão quando, em uma contenda, deu razão à parte contrária. “Eu estava defendendo uma parte, mas achei que quem tinha razão era o outro. Aí dei tchau.”

Em 1972, ele gravou seu primeiro disco, “Quadrafônico”, com Geraldo Azevedo. Mas o estouro mesmo veio dez anos depois, com o álbum “Cavalo de Pau”, que reúne sucessos como “Tropicana” e “Como Dois Animais”.

Nesse hiato de tempo, Alceu embarcou para Boston, onde fez um curso de Sociologia e Desenvolvimento da América Latina, em Harvard. “O curso era horrível, fraco”, conta.

Ele gostava mesmo era de tocar violão -um violão que pegou emprestado- pelas praças de Boston. “Era a época da guerra do Vietnã, dos hippies, eu ficava lá tocando violão o tempo todo e eles adoravam, pareciam que estavam recebendo um santo”, lembra.

Um dia, um jornalista americano o ouviu tocando e se interessou. Ao saber que Alceu era brasileiro, perguntou se aquilo era samba. Ele explicou que não, que era o som do Nordeste, de Pernambuco.

“Ele não sabia o que era Pernambuco, eu expliquei. No outro dia, ele parou para ouvir de novo e perguntou quais eram os temas das minhas músicas. ‘Sobretudo contra a ditadura’, respondi”.

Dias depois, Alceu se deparou com uma manchete de jornal o chamando de ‘Bob Dylan brasileiro’. “Eu nunca tinha ouvido Bob Dylan. Depois ouvi, é muito bom. Mas sou menos fanhoso que ele”, brinca.

CINEMA PERNAMBUCANO

Em 2016, Alceu fez sua estreia como diretor. O premiado filme “A Luneta do Tempo”, porém, “não passou em canto nenhum”, lembra ele, decepcionado. Foi tudo culpa do Homem-Aranha, diz. “Ele dominou todas as salas de cinema da época. Se eu vejo esse Homem-Aranha, dou na cara dele”, brinca. Alceu diz ter vontade de relançar o filme.

Uma década depois, o cinema nacional, em particular o pernambucano, vive sua fase áurea. Com “O Agente Secreto” despontando em premiações internacionais como Globo de Ouro e Oscar, Alceu comemora o reconhecimento da arte de seu lugar. “Que bom que agora o pessoal de Pernambuco consegue mostrar o seu trabalho, porque antes não conseguia”, diz.

VITALIDADE

Nem Carnaval nem turnê pelo país são um desafio para Alceu, que caminha 17 mil passos todos os dias. “O dia que caminho menos, dou dez mil passos. Tenho uma vitalidade muito grande, joguei basquete na seleção pernambucana”, conta.

Após a turnê, que passa por Salvador, Florianópolis, Curitiba, Brasília, Recife, Fortaleza, Belém e Belo Horizonte, o artista pretende emendar ainda uma pequena tour em Portugal.

“Se eu estiver num palco em São Bento do Una, ou em Jupi, que é lá perto, ou em São Paulo, ou em Berlim, em qualquer palco, quando eu chego, eu adoro”, diz.

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