“Em briga de marido e mulher, a gente mete a algema”, diz major Dayse na estreia do Portal 6 Ao Vivo
Comandante do Batalhão Maria da Penha falou sobre os desafios do enfrentamento à violência doméstica, os avanços da Lei Maria da Penha e a importância de ampliar as denúncias

Com uma entrevista exclusiva da major Dayse Veiga, comandante do Batalhão Maria da Penha, o Portal 6 Ao Vivo estreou nesta segunda-feira (20). Em conversa com o jornalista Lucas Almeida, a oficial falou sobre o combate à violência doméstica, a importância das denúncias, a proteção às vítimas e os desafios enfrentados diariamente pelas forças de segurança no enfrentamento ao feminicídio.
Durante a entrevista, a comandante fez um alerta sobre a necessidade de romper a cultura de omissão diante da violência doméstica. Segundo ela, a antiga ideia de que ninguém deve interferir em conflitos entre casais ainda contribui para que muitas mulheres permaneçam em situação de risco.
“Por muito tempo as pessoas repetiam que em briga de marido e mulher não se mete a colher. Aqui em Goiás a gente tem uma máxima: em briga de marido e mulher, a gente mete a algema.”
Para Dayse, o combate à violência passa também pela conscientização da população sobre a importância de denunciar os casos e acionar as forças de segurança sempre que houver sinais de agressão.
“A gente não está aqui para passar a mão na cabeça de abusador. É importantíssimo levar conhecimento sobre os canais de denúncia, como acionar a Polícia Militar e onde essa mulher pode buscar ajuda.”
Ao longo da conversa, a comandante relembrou a criação da Patrulha Maria da Penha, implantada inicialmente na região Noroeste de Goiânia, onde havia maior incidência de casos de violência doméstica. Com o aumento da demanda, o serviço foi ampliado para outras regiões e se tornou referência nacional.
Ela destacou que Goiás foi o terceiro estado brasileiro a criar uma unidade especializada no atendimento às mulheres em situação de violência e, atualmente, é o único do país que conta com quatro batalhões exclusivos para esse tipo de serviço.
Outro ponto abordado foi a interpretação dos dados relacionados aos registros de violência doméstica. Segundo a major, o crescimento das ocorrências registradas não significa, necessariamente, que mais mulheres estejam sendo vítimas de agressões.
“Muita gente olha os números e acha que a violência aumentou. Na verdade, existe um serviço preventivo que faz com que essas mulheres procurem mais a polícia e denunciem.”
A comandante também explicou como funciona o acompanhamento das vítimas após a concessão das medidas protetivas. Atualmente, segundo ela, mais de 12 mil mulheres são assistidas em 15 municípios goianos, passando por análises de risco e acompanhamento contínuo das equipes do Batalhão Maria da Penha.
Durante a entrevista, Dayse comentou ainda sobre um caso recente registrado em Goiânia, no qual uma mulher foi surpreendida pelo ex-companheiro no ambiente de trabalho. Ela ressaltou que, durante a abordagem policial, o suspeito tentou responsabilizar a própria vítima pelo ocorrido, comportamento que, segundo a comandante, é recorrente em casos de violência doméstica.
Ao falar sobre o papel da sociedade, ela reforçou que familiares, vizinhos e testemunhas não devem ignorar sinais de agressão.
“A população não pode tolerar esse tipo de violência. Muitas vítimas permanecem nesses relacionamentos por medo ou dependência emocional, e isso torna esse enfrentamento ainda mais difícil.”
Outro assunto abordado foi o funcionamento dos pedidos silenciosos de socorro, como aqueles realizados em farmácias, além dos sinais feitos com as mãos que podem indicar que uma mulher precisa de ajuda em locais públicos. A comandante explicou que esses protocolos têm sido cada vez mais divulgados e representam ferramentas importantes para salvar vidas.
Na reta final da entrevista, Dayse compartilhou experiências marcantes vividas desde que passou a integrar o Batalhão Maria da Penha. Entre elas, relembrou uma ocorrência registrada em 2017, no Jardim Cerrado, em Goiânia, envolvendo uma mulher que viveu aproximadamente 15 anos em um relacionamento abusivo.
Ao comentar histórias como essa, a comandante admitiu que o trabalho exige equilíbrio emocional constante.
“É difícil não se colocar no lugar da pessoa. É um serviço desgastante, mas, ao mesmo tempo, muito gratificante.”
Mesmo destacando a necessidade de agir com técnica e imparcialidade, ela afirmou que o principal objetivo da equipe é devolver segurança e autonomia às vítimas.
“Nosso papel é tentar fazer com que essa mulher possa ter qualidade de vida e possa retornar à vida dela de forma segura.”
A entrevista também abordou a importância da rede de apoio às vítimas, programas voltados à autonomia financeira das mulheres, suporte psicológico, a integração entre os órgãos de segurança pública e o uso de inteligência artificial para otimizar o trabalho policial. Dayse ainda apresentou o aplicativo Mulher Segura, ferramenta desenvolvida para facilitar o acesso das vítimas aos serviços de proteção.
A entrevista completa está disponível no Portal 6 Ao Vivo, novo programa do Portal 6 apresentado pelo jornalista Lucas Almeida.
O Portal 6 Ao Vivo vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 18h30, no canal oficial do Portal 6 no YouTube, trazendo entrevistas, análises e debates sobre os principais assuntos de Goiás.
Confira a entrevista na íntegra:
Texto produzido em colaboração com a jornalista Natália Sezil.
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